Três erros nos custaram caro em livros de verdade.
O primeiro foi um formato que não era o que dizia o nome. A chave 16x23 do nosso motor entregava 6 x 9 polegadas, e quem desenhava a capa pelo nome errava 7,6 mm de largura. O segundo foi texto do autor que sumiu. Uma regra do gerador engoliu 1.370 palavras de um livro já escrito, e o gate de texto passou limpo. O terceiro foram 46 páginas em branco criadas por um modelo que mandava cada capítulo para a página ímpar.
Nenhum desses erros teria mudado com um programa de diagramação melhor. Todos foram achados do mesmo jeito: alguém mediu o arquivo e comparou com o que deveria ser. Este guia conta como a eBuz produz o miolo de um livro profissional, do manuscrito ao arquivo da gráfica, sem InDesign, e o que cada etapa mede.
A tese: o gargalo é a medição
Programa de layout resolve como o livro parece. Não resolve se o livro está certo. O arquivo pode ter o texto inteiro e o formato errado. Pode ter o formato certo e uma página sem texto. Pode ter sangria no nome e nenhuma na borda do papel.
A regra que organiza a nossa pré-impressão é uma linha: medir, nunca deduzir. Se um teste crítico não rodou, não existe "pronto para a gráfica". E "não medi" não é o mesmo que "não achei".
Isso muda como se escolhe ferramenta. Em vez de perguntar "qual programa diagrama melhor", pergunta-se "qual ferramenta deixa o livro como um arquivo que eu consigo medir". Um livro que é texto mais regras de estilo se compila em menos de um segundo (234 páginas, em uma medição nossa) e se confere com comandos. Um livro que é um documento visual precisa ser aberto e olhado.
O mapa da esteira em seis camadas
Dividimos a produção em seis camadas. Em cada uma, o guia diz o que se mede e onde está o detalhe. Os temas sem link ainda estão a caminho, e este guia é atualizado quando saem.
| Camada | A pergunta | A prova medida | Onde ler |
| 1. Antes de diagramar | O texto é do autor, e é dele de verdade? | 1.370 palavras perdidas em um PDF cujo gate passou | conferir o PDF final; gate de fonte; esboço e boneco; auditoria por leitores |
| 2. Ferramental | O que roda o livro, e com qual formato? | 16x23 entrega 6 x 9; 7,6 mm de erro | Typst no lugar do InDesign; formato e a armadilha do 16x23; instalar o ambiente; fontes |
| 3. Diagramação | A página obedece a regra do livro? | 46 páginas em branco; layout que não converge | capítulo em página ímpar; margens e mancha; pré-texto; aberturas de Parte |
| 4. Pré-impressão | A gráfica consegue imprimir isto? | sangria que só parecia; 400% de tinta; capa com 358% | sangria; PDF/X-1a; checklist de preflight; tinta e papel; ficha e ISBN; capa e lombada |
| 5. Formatos digitais | O EPUB e o Kindle estão válidos? | EPUBCheck com 0 erros | EPUB com Pandoc; Kindle e KDP |
| 6. Operação | Outra pessoa consegue repetir? | 6 de 6 arquivos estragados reprovados | rodar sem o Claude; repassar o projeto; gates e teste de mutação |
As versões das ferramentas estão na matriz de versões, a única página do cluster que carrega datas.
Camada 1: antes de diagramar
Diagramar o texto errado não conserta nada. Por isso a primeira camada trata de de quem é o texto.
O ponto de partida é separar, em duas colunas, o que o autor efetivamente disse (digitado ou falado, literal, com o erro de digitação incluído) e o que uma ferramenta escreveu sem fonte. Em quatro casos nossos, o documento gerado pela ferramenta tinha de 21 a 112 vezes mais texto do que o autor tinha dito. Sem essa separação, a ferramenta vira coautora sem ninguém perceber.
Depois vem o esboço e o boneco: o esboço diagramado, em que cada capítulo mostra o que ainda falta do autor. Escrever antes da conversa com o autor não é o erro. O erro é escrever sem declarar o que falta. Em cada buraco do texto vai uma marca de lacuna, e é a lista de lacunas que vira o roteiro da conversa.
E existe um gate para a primeira pessoa. Em um primeiro rascunho nosso, a medição achou 22 ocorrências de primeira pessoa de experiência ("eu vi", "eu atendi"), e 12 não tinham nenhum chão na fala do autor. A regra: se a fonte não mostra que o autor viveu, viu, disse, ensinou ou usa aquilo, a primeira pessoa sai. A ideia fica.
Para livros que o autor já escreveu, o texto entra sem alteração. É aí que mora o risco do artigo 1.370 palavras sumiram: quando a diagramação reconhece elementos do texto, uma regra pode engolir parágrafos. A defesa é medir nos dois sentidos, do texto para o PDF e do PDF para o texto.
Camada 2: o ferramental
O compilador que usamos é o Typst. Um livro é um arquivo de texto com regras de estilo, e um comando gera o PDF. O mesmo compilador faz o boneco, o miolo, a capa e a prova de revisão. O artigo Typst no lugar do InDesign mostra o arquivo mínimo, o passo a passo e o que ele não faz: ele não grava PDF/X, e o fechamento para a gráfica é outro passo.
Aqui mora uma decisão que parece pequena: fixar a versão. Em um teste nosso, uma versão mais nova do compilador manteve o número de páginas e não deu aviso, mas mudou o layout em 71 de 158 páginas de um boneco. Por isso as versões ficam na matriz, e cada artigo diz "testado com".
O outro item da camada é o formato. O padrão da casa é 6 x 9 polegadas: 432 x 648 pontos, ou 449 x 665 com sangria de 3 mm. O erro do 16x23 está no artigo sobre formatos de página, com a tabela e o comando para auditar. Há uma exceção declarada: o nosso modelo de livro técnico, com coluna de margem de 5 cm, fica em 21 x 28 cm.
Camada 3: a diagramação
Três decisões evitam a maior parte dos defeitos de página.
Capítulo em página ímpar, sem página em branco. O que sobra entre dois capítulos vira página de anotações, criada pela quebra nativa do compilador. A alternativa, decidir a paridade por consulta à numeração da página, não converge com mais de cinco páginas de enchimento: o compilador avisa, gera o PDF mesmo assim e os capítulos abrem na página errada. Está no artigo capítulo em página ímpar.
Margens espelhadas e mancha que não anda. A margem interna é a da lombada, a externa é a de fora, e a coluna lateral, quando existe, fica sempre do lado de fora. Na sangria, toda margem cresce 3 mm para a mancha ficar onde estava.
Pré-texto completo. Folha de rosto, créditos com ficha catalográfica e ISBN, sumário: treze posições editoriais, cada uma com regra. Um conjunto de guardas aborta a geração do arquivo se algo ficar fora do lugar, como o sumário em página par ou um ISBN que está nos dados e não aparece em nenhuma página.
Camada 4: a pré-impressão
É onde o arquivo vira papel, e onde os números mais importam.
- Sangria. A página cresce 6 mm por dimensão e cada margem cresce 3 mm. O teste que só compara tamanho de arquivo erra: uma capa de 490 mm foi aprovada por ser maior que os 480,8 mm esperados, e tinha sangria zero. A conferência certa olha os pixels da borda. Sangria, corte e zona de segurança tem o comando.
- Cor. Texto e cinzas em K puro, sem preto de quatro cores. O arquivo fecha em PDF/X-1a, com Ghostscript e pikepdf. O link clicável fere o padrão, então o miolo de impressão sai sem link. O caminho completo está em CMYK, K puro e PDF/X-1a.
- Tinta. Uma capa antiga media 358% de cobertura total no pior ponto, na foto do autor. Papel sem revestimento segura 240 a 260%, e couché, 300 a 330%. A capa nova fechou em 296%. O teto do nosso miolo é 300%, provisório até a gráfica definir o papel.
- Arte de capa. Uma arte a 72 ppi não tem conserto por reamostragem: falta pixel na origem. A saída foi extrair a camada, binarizar e vetorizar com potrace (sem a opção
--flat, que perde os furos internos). - Lombada. Sai de uma conta: espessura da folha vezes metade das páginas. Ela só é definitiva depois que a gráfica confirma o papel e a mão dele. A geometria da capa nunca é digitada: é calculada a partir do PDF do miolo, e muda sozinha quando o miolo muda.
- Capa e pesquisa. Pesquisa de IA inventa livro e link. O gate da capa abre cada link do dossiê de referências e confere se cada palavra dos textos de capa existe no livro.
O fechamento de tudo é o checklist de preflight, com oito grupos de conferência e um teste de mutação que prova que ele reprova.
Camada 5: formatos digitais
O EPUB nasce do mesmo texto. Duas armadilhas pagas valem para qualquer livro. Primeira: a pasta de trabalho que parece ser a fonte pode estar defasada. Em um EPUB que reconstruímos, o arquivo de trabalho era de julho e não tinha um caso acrescentado depois, e ainda tinha uma história removida por ser fabricada. A prova barata é contar, com grep -c, uma palavra que só existe na versão nova e outra que só existe na velha. Segunda: o arquivo de créditos não nasce de nenhuma opção do conversor, e o mimetype do pacote precisa ser o primeiro arquivo e estar sem compressão, senão o EPUB quebra. A validação final é com o EPUBCheck, e o alvo é zero erro.
Camada 6: operação
Uma esteira que só funciona na cabeça de quem a montou não é esteira. Três práticas seguram a operação.
Gates que provam. Todo gate nosso foi visto reprovando um arquivo estragado de propósito. Um gate que nunca reprovou nada não vale.
Uma cópia canônica por script. Chegamos a ter sete scripts que divergiam entre o servidor e o repositório, em direções diferentes. A regra é reconciliar arquivo a arquivo, com diff revisado, e só então apontar uma cópia para a outra.
A IA é opcional. Cada passo mostra o que o Claude faz hoje e como fazer sem ele. O artigo rodar tudo sem o Claude percorre os 17 passos do nosso procedimento, um a um.
Os erros caros, em ordem de custo
Quando um livro nosso dá errado, o defeito costuma ser um destes. Eles estão ordenados do que mais dói ao que mais se repete, e cada um tem a medição que o pega:
- Texto do autor que some. 1.370 palavras fora de um PDF. Pega: a conferência de conservação, do texto para o PDF.
- Sangria declarada e ausente. Uma capa de 490 mm aprovada com sangria zero. Pega: o pixel da borda, depois de conferir a dimensão.
- Formato pelo nome.
16x23entregando 6 x 9. Pega: opdfinfodo arquivo, antes de desenhar a capa. - Tinta demais. 358% no pior ponto da capa antiga e 400% no preto de quatro cores do teste. Pega: a rasterização em CMYK e a soma dos canais.
- Página em branco e paridade errada. 46 páginas em branco, e capítulos em página par. Pega: medir em que página cada capítulo abriu, e tratar o aviso de convergência como erro.
- Versão que muda sem ninguém ver. O mesmo livro, o mesmo número de páginas e 71 de 158 páginas com layout diferente. Pega: comparar o PDF novo com um de referência, pixel a pixel e texto a texto.
Nenhum desses seis é "falta de talento de diagramador". Todos são falta de medição.
O caminho de um arquivo, do começo ao fim
Só para dar a forma do todo: o miolo de um livro passa por cinco comandos, e cada um tem a sua conferência.
typst compile --font-path fontes --input grafica=1 livro.typ miolo-cru.pdf
python3 fecha_pdfx.py miolo-cru.pdf miolo.pdf 3 "Título do livro"
pdfinfo -box miolo.pdf
gs -q -o - -sDEVICE=inkcov miolo.pdf
python3 conserva.py texto-do-autor.txt miolo.pdf
O primeiro compila em modo de impressão. O segundo fecha em PDF/X-1a. Os outros três medem geometria, cobertura de tinta por página e conservação do texto. Cada artigo do cluster abre um desses comandos e mostra o que ele pega e o que ele não vê.
Os números que não mudam
| Item | Valor |
| Formato | 6 x 9 polegadas (432 x 648 pontos) |
| Sangria | 3 mm; arquivo com 449 x 665 pontos |
| Zona de segurança | nenhum texto a menos de 5 mm do corte |
| Páginas | múltiplo de 4 |
| Cor | texto e cinzas em K puro; PDF/X-1a em CMYK |
| Tinta | teto provisório de 300%, até a gráfica definir o papel |
| Legibilidade | Flesch-Kincaid menor ou igual a 12 no corpo, medido por script |
| Ficha catalográfica | colação medida no PDF; campo que não existe fica "a definir" |
| Lombada | só definitiva depois que a gráfica confirma o papel |
Quando NÃO usar esta esteira
Critério de decisão, não medição. Se o seu livro é uma peça visual desenhada página a página, como um livro de arte ou uma revista, um programa de layout visual é a ferramenta certa. Se a sua gráfica exige um formato de arquivo específico, ela manda. E se você quer o livro pronto sem montar nada, o caminho é contratar quem opera a esteira, como a máquina de livros da eBuz.
Alternativa sem o nosso ambiente
Tudo neste guia roda com ferramentas gratuitas e abertas, em uma máquina comum: o compilador Typst, o Pandoc, o EPUBCheck, o Ghostscript, o poppler, o qpdf, o pikepdf e o potrace. Nenhum passo exige conta, chave ou o nosso servidor. Onde um passo depende de um produto nosso, o artigo diz isso e oferece o substituto.
O que ainda não está provado
Honestidade vale mais que acabamento. Hoje há quatro pontos abertos:
- O PDF/X-1a é fechado com Ghostscript e pikepdf, mas não passou por validação formal em Acrobat ou pdfToolbox. A gráfica pode rodar o preflight dela.
- O perfil de cor é provisório. Nunca adotamos um em silêncio, e o arquivo declara que é provisório até a gráfica informar o dela.
- O papel e a mão dele ainda dependem da gráfica. Sem isso, a lombada é uma tabela por papel candidato, e não um número final.
- O teste de reprodução, em que uma pessoa de fora monta um miolo de 20 páginas com ficha catalográfica e PDF/X só com o que está publicado, ainda não foi concluído.
O que o Claude faz hoje, e como fazer sem ele
Hoje o Claude lê o nosso procedimento, escreve e roda os scripts e as conferências, e relata o que reprovou. Sem ele, o procedimento é um texto em português que uma pessoa segue, e os scripts e os comandos de cada artigo rodam por linha de comando. Cada artigo do cluster tem a seção que mostra a equivalência.
Por onde começar
- Você é autor e quer entender o que cobrar de quem faz o seu livro: comece pela camada 1 e pelo checklist de preflight.
- Você diagrama e quer reproduzir sem InDesign: comece por Typst no lugar do InDesign e depois por formatos de página.
- Você tem editora ou agência e quer montar a esteira: comece por rodar tudo sem o Claude.
Se você prefere ter o livro conduzido, conheça a máquina de livros da eBuz, ou veja o livro da eBuz.
Baixe, para guardar: mapa da esteira de 17 passos, com e sem IA (PDF) e o checklist de preflight do miolo, com comando e limite por item (PDF).
Versões usadas neste guia: veja a matriz de versões.



