Cinco livros nossos foram escritos antes da conversa gravada com o autor. Três deram certo. Dois custaram de quatro a seis semanas de reescrita.
O que separou os dois grupos não foi a ordem. Foi uma única prática. Nos livros que deram certo, cada buraco de informação foi declarado no texto, com uma marca visível e uma lista de perguntas para o autor. Nos que deram errado, o buraco foi preenchido sem marcar a invenção.
Daí vem a frase que organiza o nosso procedimento: escrever antes da sessão com o autor não é o erro. Escrever sem declarar o que falta é o erro. Este artigo mostra os dois instrumentos que tornam isso seguro: o esboço e o boneco.
O esboço: cinco Partes com função fixa
O esboço é a estrutura do livro, antes de qualquer capítulo escrito. O único invariante forte do nosso formato é este: o livro tem cinco Partes, e cada uma tem uma função. Ele se sustentou em sete livros de mercados diferentes.
| Parte | Função | O leitor sai sabendo |
| I | O estado atual, sem julgamento | que a dor tem nome e não é culpa dele |
| II | Por que o que ele já tentou não resolveu | que o problema não é falta de esforço, é diagnóstico errado |
| III | O que de fato decide | o mecanismo real, e é aqui que a tese aparece |
| IV | O método, nomeado | como se faz, em etapas |
| V | A aplicação, e a resistência | o que fazer na segunda-feira e o que vai atrapalhar |
Um detalhe que parece maneirismo e não é: em quatro de seis livros nossos, o título da Parte II começa literalmente com "Por que". É a Parte que tira a culpa do leitor, e ela só funciona nomeando o que ele já pagou e não resolveu. Título de Parte é frase, e não substantivo.
Dentro de cada capítulo, quatro regras: abrir falando com o leitor na situação dele; cena antes de regra; uma ideia por capítulo, nomeada no título; fechar entregando algo (um critério, uma pergunta, uma conta que o leitor consegue fazer).
O tamanho, declarado antes
Não existe "tamanho certo". Existem dois produtos:
| Livro curto de autoridade | Manifesto | |
| Páginas | 49 a 126 | 300 a 450 |
| Capítulos | 5 a 21 | 20 a 25 |
| Serve para | abrir conversa e entregar num evento | fundar um método e sustentar palestra e curso |
A escolha vem antes da primeira linha. E o alvo estoura sempre: um livro nosso mirou 150 páginas e fechou em 410. Mire baixo de propósito.
O campo que vira o roteiro
Cada peça do esboço carrega um campo: o que o autor precisa trazer. É a lista de lacunas, peça por peça. Ela não é um acessório. É ela que vira, mais tarde, o roteiro da conversa gravada com o autor, e por isso a conversa sai como uma lista de compras, e não como um pedido genérico de "conte tudo".
O esboço nasce em duas versões: a interna, com marcas e notas, e a do autor, em segunda pessoa, sem nenhuma marca interna. Fazer as duas juntas evita refazer o trabalho depois.
O boneco: o esboço diagramado
O boneco é o esboço em forma de livro, com a aparência das páginas, em que cada página diz o que falta. Cada capítulo termina em um bloco chamado "o que vem de você", a lista do que o autor precisa trazer.
O boneco não é o livro. Ele tem nome de arquivo próprio, é marcado como prévia, e cada página se declara como parte de um boneco. A ficha catalográfica sai completa, mas com a marca ‹A PREENCHER› em todo campo sem dado. Campo omitido é registro mentindo. Campo com pendência é registro honesto.
Existe um motivo para o boneco ser o único arquivo que o procedimento não bloqueia por falta de concepção: ele existe para vender a conversa que fecha a concepção. Mostrar ao autor uma página que já parece livro, com o que falta explícito, é o que o faz querer preencher.
Como fazer o seu
O boneco se faz com o mesmo compilador do miolo. Este é o esqueleto mínimo, em que cada capítulo termina no bloco do que falta:
#let falta(itens) = block(
width: 100%, fill: luma(94%), inset: 10pt, radius: 3pt, breakable: false,
)[
*O que vem de você*
#for i in itens [- #i \ ]
]
= Capítulo 1: o estado atual
Texto escrito até aqui, com as lacunas marcadas.
#falta((
"Uma cena real em que o problema apareceu.",
"O número que ele usa para medir isso hoje.",
))
O bloco de lacunas usa breakable: false, para o compilador movê-lo inteiro e não partir o bloco entre páginas. Compilamos o exemplo, e o bloco saiu com as duas linhas em lista. O formato de página, as margens e o restante estão em Typst no lugar do InDesign.
Passo a passo
- Escolha a extensão (curto de autoridade ou manifesto) e anote.
- Monte as cinco Partes com títulos em frase.
- Para cada peça, escreva "o que o autor precisa trazer".
- Faça as duas versões do esboço: a interna e a do autor.
- Gere o boneco, com o bloco de lacunas no fim de cada capítulo.
- Mostre ao autor, e deixe que as lacunas guiem a conversa.
A ordem que invertemos, e a prova
O curso original mandava preencher a Identidade do Livro, com 12 campos, antes de qualquer outra coisa. Medimos o que isso produzia com só um documento de contexto na mão: seis campos como hipótese e seis em branco. O esboço, ao contrário, rende de imediato, porque ele não precisa dos campos fechados. Precisa das lacunas nomeadas. Por isso a Identidade foi para o fim do processo, onde ela é honesta.
O erro que custa caro
Escrever antes sem marcar. O buraco de informação preenchido com invenção só aparece quando o autor lê e diz "isso nunca aconteceu". E, nesse ponto, o custo é o do livro inteiro, porque a invenção se espalha pelos capítulos seguintes.
Quando NÃO usar
Se o autor já tem um livro escrito, o caminho é outro: auditoria do que existe, e não um esboço do zero. Está em o livro que o autor já escreveu.
Alternativa sem o nosso ambiente
Um documento de texto faz o esboço, com o campo "o que preciso do autor" em cada capítulo. O boneco pode ser um PDF simples, feito em qualquer programa, desde que cada capítulo termine no bloco do que falta. A ordem é a mesma.
O que o Claude faz hoje, e como fazer sem ele
Hoje o Claude escreve o esboço e as duas versões a partir do gate de fonte, e gera o boneco com um script. Sem ele, o esboço é um trabalho editorial feito por uma pessoa, com o gate de fonte na mão, e o boneco sai do esqueleto acima.
Onde entra na operação
O esboço é o passo 5 do procedimento e o boneco, o passo 6. Vêm depois do gate de fonte. O mesmo modelo, em outro modo, vira o miolo: boneco e miolo, dois arquivos do mesmo livro. O guia completo está em Como produzimos o miolo de um livro profissional sem InDesign.
Baixe, para guardar: checklist de concepção do livro, do gate de fonte ao boneco (PDF).
Versões usadas neste artigo: veja a matriz de versões.



