Produção de Livros

O erro não é escrever antes do autor. É escrever sem dizer o que falta

Escrever antes da conversa com o autor funcionou em alguns livros e custou semanas de reescrita em outros. A diferença foi declarar o que faltava. O esboço de cinco Partes e o boneco que mostra as lacunas.

JonathanJonathan
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Capa do artigo: O erro não é escrever antes do autor. É escrever sem dizer o que falta (eBuz, Produção de Livros)

Cinco livros nossos foram escritos antes da conversa gravada com o autor. Três deram certo. Dois custaram de quatro a seis semanas de reescrita.

O que separou os dois grupos não foi a ordem. Foi uma única prática. Nos livros que deram certo, cada buraco de informação foi declarado no texto, com uma marca visível e uma lista de perguntas para o autor. Nos que deram errado, o buraco foi preenchido sem marcar a invenção.

Daí vem a frase que organiza o nosso procedimento: escrever antes da sessão com o autor não é o erro. Escrever sem declarar o que falta é o erro. Este artigo mostra os dois instrumentos que tornam isso seguro: o esboço e o boneco.

O esboço: cinco Partes com função fixa

O esboço é a estrutura do livro, antes de qualquer capítulo escrito. O único invariante forte do nosso formato é este: o livro tem cinco Partes, e cada uma tem uma função. Ele se sustentou em sete livros de mercados diferentes.

ParteFunçãoO leitor sai sabendo
IO estado atual, sem julgamentoque a dor tem nome e não é culpa dele
IIPor que o que ele já tentou não resolveuque o problema não é falta de esforço, é diagnóstico errado
IIIO que de fato decideo mecanismo real, e é aqui que a tese aparece
IVO método, nomeadocomo se faz, em etapas
VA aplicação, e a resistênciao que fazer na segunda-feira e o que vai atrapalhar

Um detalhe que parece maneirismo e não é: em quatro de seis livros nossos, o título da Parte II começa literalmente com "Por que". É a Parte que tira a culpa do leitor, e ela só funciona nomeando o que ele já pagou e não resolveu. Título de Parte é frase, e não substantivo.

Dentro de cada capítulo, quatro regras: abrir falando com o leitor na situação dele; cena antes de regra; uma ideia por capítulo, nomeada no título; fechar entregando algo (um critério, uma pergunta, uma conta que o leitor consegue fazer).

O tamanho, declarado antes

Não existe "tamanho certo". Existem dois produtos:

Livro curto de autoridadeManifesto
Páginas49 a 126300 a 450
Capítulos5 a 2120 a 25
Serve paraabrir conversa e entregar num eventofundar um método e sustentar palestra e curso

A escolha vem antes da primeira linha. E o alvo estoura sempre: um livro nosso mirou 150 páginas e fechou em 410. Mire baixo de propósito.

O campo que vira o roteiro

Cada peça do esboço carrega um campo: o que o autor precisa trazer. É a lista de lacunas, peça por peça. Ela não é um acessório. É ela que vira, mais tarde, o roteiro da conversa gravada com o autor, e por isso a conversa sai como uma lista de compras, e não como um pedido genérico de "conte tudo".

O esboço nasce em duas versões: a interna, com marcas e notas, e a do autor, em segunda pessoa, sem nenhuma marca interna. Fazer as duas juntas evita refazer o trabalho depois.

O boneco: o esboço diagramado

O boneco é o esboço em forma de livro, com a aparência das páginas, em que cada página diz o que falta. Cada capítulo termina em um bloco chamado "o que vem de você", a lista do que o autor precisa trazer.

O boneco não é o livro. Ele tem nome de arquivo próprio, é marcado como prévia, e cada página se declara como parte de um boneco. A ficha catalográfica sai completa, mas com a marca ‹A PREENCHER› em todo campo sem dado. Campo omitido é registro mentindo. Campo com pendência é registro honesto.

Existe um motivo para o boneco ser o único arquivo que o procedimento não bloqueia por falta de concepção: ele existe para vender a conversa que fecha a concepção. Mostrar ao autor uma página que já parece livro, com o que falta explícito, é o que o faz querer preencher.

Como fazer o seu

O boneco se faz com o mesmo compilador do miolo. Este é o esqueleto mínimo, em que cada capítulo termina no bloco do que falta:

#let falta(itens) = block(
  width: 100%, fill: luma(94%), inset: 10pt, radius: 3pt, breakable: false,
)[
  *O que vem de você*
  #for i in itens [- #i \ ]
]

= Capítulo 1: o estado atual
Texto escrito até aqui, com as lacunas marcadas.

#falta((
  "Uma cena real em que o problema apareceu.",
  "O número que ele usa para medir isso hoje.",
))

O bloco de lacunas usa breakable: false, para o compilador movê-lo inteiro e não partir o bloco entre páginas. Compilamos o exemplo, e o bloco saiu com as duas linhas em lista. O formato de página, as margens e o restante estão em Typst no lugar do InDesign.

Passo a passo

  1. Escolha a extensão (curto de autoridade ou manifesto) e anote.
  2. Monte as cinco Partes com títulos em frase.
  3. Para cada peça, escreva "o que o autor precisa trazer".
  4. Faça as duas versões do esboço: a interna e a do autor.
  5. Gere o boneco, com o bloco de lacunas no fim de cada capítulo.
  6. Mostre ao autor, e deixe que as lacunas guiem a conversa.

A ordem que invertemos, e a prova

O curso original mandava preencher a Identidade do Livro, com 12 campos, antes de qualquer outra coisa. Medimos o que isso produzia com só um documento de contexto na mão: seis campos como hipótese e seis em branco. O esboço, ao contrário, rende de imediato, porque ele não precisa dos campos fechados. Precisa das lacunas nomeadas. Por isso a Identidade foi para o fim do processo, onde ela é honesta.

O erro que custa caro

Escrever antes sem marcar. O buraco de informação preenchido com invenção só aparece quando o autor lê e diz "isso nunca aconteceu". E, nesse ponto, o custo é o do livro inteiro, porque a invenção se espalha pelos capítulos seguintes.

Quando NÃO usar

Se o autor já tem um livro escrito, o caminho é outro: auditoria do que existe, e não um esboço do zero. Está em o livro que o autor já escreveu.

Alternativa sem o nosso ambiente

Um documento de texto faz o esboço, com o campo "o que preciso do autor" em cada capítulo. O boneco pode ser um PDF simples, feito em qualquer programa, desde que cada capítulo termine no bloco do que falta. A ordem é a mesma.

O que o Claude faz hoje, e como fazer sem ele

Hoje o Claude escreve o esboço e as duas versões a partir do gate de fonte, e gera o boneco com um script. Sem ele, o esboço é um trabalho editorial feito por uma pessoa, com o gate de fonte na mão, e o boneco sai do esqueleto acima.

Onde entra na operação

O esboço é o passo 5 do procedimento e o boneco, o passo 6. Vêm depois do gate de fonte. O mesmo modelo, em outro modo, vira o miolo: boneco e miolo, dois arquivos do mesmo livro. O guia completo está em Como produzimos o miolo de um livro profissional sem InDesign.

Baixe, para guardar: checklist de concepção do livro, do gate de fonte ao boneco (PDF).

Versões usadas neste artigo: veja a matriz de versões.

Perguntas frequentes

O que é um boneco de livro?

É o esboço do livro diagramado como se fosse o livro, para o autor ler. Cada capítulo termina com a lista do que ainda falta, e campos sem dado aparecem com uma marca de pendência. Ele serve para alinhar o livro com o autor antes de escrever tudo.

Quantas Partes um livro de autoridade deve ter?

No nosso formato, cinco, com função fixa: o estado atual, por que o que ele tentou não resolveu, o que de fato decide, o método nomeado e a aplicação com a resistência. Seis Partes é exceção, e quase sempre é a quinta dividida.

Posso escrever o livro antes de conversar com o autor?

Pode, desde que cada buraco de informação seja declarado no texto, com uma marca e as perguntas que serão feitas ao autor. O erro é preencher o buraco com invenção, sem marcar.

Por que o esboço tem duas versões?

Porque a versão interna carrega marcas e notas de trabalho, e a do autor é escrita para ele, em segunda pessoa, sem nenhuma marca interna. Fazer as duas juntas evita refazer o trabalho quando o autor for ler.