Pediram uma diagramação mais técnica para um livro-texto. A primeira versão seguiu uma referência de livro didático do ensino médio. O resultado foi julgado "muito infantil".
A referência certa era outra: um livro-texto de pós-graduação, sóbrio, com a estrutura didática de um bom material de estudo. A resposta do autor foi um pedido simples: queria "o melhor dos dois mundos". O layout que saiu dali, híbrido, é o que este artigo descreve, com o código das peças principais. As duas referências descrevem estilo. Nenhuma arte, logotipo ou trecho delas é usado: o desenho é próprio.
O que o layout tem
O modelo é um livro em formato 210 x 280 mm. A página tem três faixas:
- Coluna de texto: 114 mm, com o corpo em serifa, justificado e hifenizado.
- Canaleta: 7 mm.
- Coluna de margem: 50 mm, para o que acompanha o texto sem interromper: a etiqueta de origem, a legenda da figura, o "o que falta".
Além delas, o modelo tem cabeçalho corrente com régua de ponta a ponta, cor por Parte, abertura de Parte e de capítulo, e um painel de fim de capítulo. O texto de corpo usa a Crimson Pro em 10,5 pontos, e títulos, legendas e rótulos usam a Inter.
Esse formato é a exceção ao nosso padrão de 6 x 9 polegadas: a coluna de margem de 50 mm não cabe nele. Trocar o formato desse modelo é refazer o layout. O formato padrão está explicado em 6 x 9 e a armadilha do 16x23.
A conta das margens
Em 210 mm de largura, as margens ficam assim: 24 mm interna, para a lombada, e 72 mm externa. Os 72 mm incluem a canaleta e a coluna de margem. O que sobra é a coluna de texto, de 114 mm. No topo, 28 mm, e na base, 24 mm.
A coluna de margem fica sempre do lado de fora. Isso significa que, na página ímpar, ela fica à direita, e na página par, à esquerda. É essa alternância que dá trabalho.
Nota na margem que muda de lado
Este é o código completo do nosso teste, com a etiqueta de origem, a nota que alterna de lado, a moldura de figura e o painel de fim de capítulo:
#set page(width: 210mm, height: 280mm,
margin: (inside: 24mm, outside: 72mm, top: 28mm, bottom: 24mm))
#set text(font: "Crimson Pro", size: 10.5pt, lang: "pt")
#set par(justify: true, leading: 0.68em)
#let sans(corpo) = text(font: "Inter", corpo)
#let etiqueta(cor, texto) = box(fill: cor, inset: (x: 5pt, y: 2pt), radius: 2pt,
sans(text(size: 7pt, fill: white, weight: "bold", texto)))
#let nota(corpo) = context {
let direita = calc.odd(here().page())
place(top + (if direita { right } else { left }),
dx: if direita { 57mm } else { -57mm },
box(width: 50mm, sans(text(size: 8pt, corpo))))
}
#let moldura(legenda) = block(width: 100%, height: 40mm, fill: luma(92%), stroke: 0.5pt + luma(70%),
align(center + horizon, sans(text(size: 9pt, fill: luma(40%))[figura que ficou fora do texto])))
#let painel(titulo, itens) = block(breakable: false, width: 100%, fill: rgb("#EAF0F8"),
inset: 12pt, radius: 4pt, clip: true)[
#sans(text(weight: "bold", size: 11pt, titulo))
#v(4pt)
#for (rotulo, texto) in itens [
#block(fill: white, inset: 8pt, radius: 3pt, width: 100%, breakable: false)[
#sans(text(size: 8pt, weight: "bold", rotulo)) \ #text(size: 9.5pt, texto)
]
#v(3pt)
]
#set block(spacing: 0pt)
#for i in range(3) [#line(length: 100%, stroke: 0.4pt + luma(75%)) #v(10pt)]
]
= Capítulo de teste
#nota[#etiqueta(rgb("#3A6EA5"), "TESE") Origem do trecho, página 12.]
O texto do capítulo corre na coluna principal. #lorem(80)
#moldura("x")
#nota[Legenda: a figura estava na página 14 do original.]
#lorem(60)
#painel("O que já funciona", (("O que funciona", "A ideia central está clara."), ("Sua vez", "O que você acrescentaria?")))
Os cuidados que o código carrega, cada um deles aprendido em um erro:
- A nota usa a paridade da página para decidir o lado. A decisão vale por página, e não depende de nenhuma outra, então não gera o problema de convergência do artigo sobre capítulo em página ímpar.
- O painel usa
breakable: false. Um bloco de altura fixa cheio de elementos soltos transborda e deixa a página visualmente vazia. Não quebrar o painel evita isso. - O painel usa
clip: true. As linhas de anotação do painel passavam do cartão. No digital elas ficam invisíveis, porque têm a cor do fundo. Na impressão, o cartão recorta. - As linhas de anotação usam
set block(spacing: 0pt). Linhas feitas comv()ganham o espaçamento de bloco por cima. Sem isso, a página de anotações estoura para a seguinte. - Só duas famílias de fonte. Conferimos com a lista de famílias do PDF: saíram a Crimson Pro e a Inter.
Medimos a posição da nota
Medimos a coluna de margem no PDF de teste, com 24 parágrafos, em quatro páginas. Nas páginas ímpares, a nota começou a 145 mm da borda esquerda. Nas pares, a 15 mm. Na primeira página, o corpo começou a 24 mm. A alternância funcionou, e a conferência é feita pela leitura das posições das palavras no PDF, com pdftotext -bbox.
A figura que ficou fora do texto
Em livro já escrito, nem toda figura, tabela ou gráfico entra no texto. Quando fica de fora, o modelo desenha uma moldura cinza no lugar, e a margem traz a legenda dizendo qual é a figura e em que página do original ela está. O leitor sabe que existe uma figura e sabe onde achar. Nada é inventado.
O painel de fim de capítulo
Todo capítulo termina com um painel em fundo azulado e cartões brancos. Os cartões do nosso painel são: o que já funciona, o que pode mudar, cuidados, o que se repete, a pergunta "sua vez" e linhas para anotar. É a parte didática do layout, e é também onde o autor responde por escrito.
Passo a passo
- Defina as faixas (24, 114, 7 e 50 mm), e some as margens para conferir que fecham a largura.
- Monte a função de nota com a paridade da página.
- Monte as peças repetidas: etiqueta, moldura, painel e abertura.
- Compile e meça a posição da nota em páginas ímpar e par.
- Liste as famílias de fonte do PDF. Devem ser duas.
- Confira o formato com
pdfinfo: 595 x 794 pontos.
O erro que custa caro
Copiar a aparência de uma referência sem conferir o público. O primeiro layout acertou a estrutura e errou o tom. O livro-texto de pós-graduação pede sobriedade, e o didático de nível médio pede cor e ícone. A decisão não é de ferramenta, e sim de leitor, e a única forma barata de acertar é mostrar uma página para o autor antes de diagramar o livro.
Quando NÃO usar
Para um livro de texto corrido sem apoio lateral, a coluna de 50 mm só encolhe a mancha e gasta papel. O 6 x 9 padrão é melhor. Para livros com muitas figuras de página inteira, a coluna pode competir com elas. O modelo serve a livro-texto, em que a margem tem trabalho a fazer.
Alternativa sem o nosso ambiente
Qualquer programa de layout faz coluna lateral com uma caixa de texto ancorada. O que não muda é a regra de alternar de lado entre páginas ímpar e par, e a medição no PDF final, que confere a posição de cada nota.
O que o Claude faz hoje, e como fazer sem ele
Hoje o Claude monta as aberturas, as notas e os painéis a partir do texto do autor e roda os gates do PDF. Sem ele, o arquivo do artigo é o ponto de partida: você preenche as peças com o seu texto e mede o resultado com os comandos dados aqui.
Onde entra na operação
O modelo de livro-texto é a base do boneco que o autor lê e do miolo que a gráfica imprime, dois arquivos do mesmo livro: veja boneco e miolo. As margens e a mancha estão explicadas em margens, mancha e entrelinha. O guia completo da esteira é Como produzimos o miolo de um livro profissional sem InDesign.
Versões usadas neste artigo: veja a matriz de versões.



