Swipe File

A bala extra na saída do garçom: o que o estudo da gorjeta mediu de verdade

O estudo do doce e da gorjeta é contado com balas de menta e 23% a mais. O artigo original mostra chocolates, uma garçonete e gorjeta de 22,99% da conta; sobre o grupo sem doce, cerca de 21% (cálculo nosso), e o que isso permite concluir.

JonathanJonathan
8 min de leitura1.637 palavras
Capa do artigo sobre Bala Extra na Saída, do Swipe File da eBuz

Resposta curta: no estudo de Strohmetz, Rind, Fisher e Lynn (2002), mesas que receberam um chocolate com a conta deram gorjeta média de 19,59%, contra 18,95% sem brinde. Com dois chocolates a gorjeta foi a 21,62%, e com um chocolate mais outro oferecido quando a garçonete já ia saindo, a 22,99%. O 23% da história popular é a gorjeta em percentual da conta, não o aumento: sobre o grupo sem brinde, o ganho foi de cerca de 21% (aritmética nossa sobre a tabela; os autores chegam a 21% em dólares). E os doces eram chocolates, não balas de menta.

O caso: dois restaurantes, três garçons, cartas de baralho

O artigo "Sweetening the Till" foi publicado no Journal of Applied Social Psychology em 2002 e tem dois experimentos. O primeiro foi feito em um restaurante no centro de Ithaca, em Nova York, no outono de 1992, com 92 grupos de clientes e dois garçons. Antes de levar a conta, cada garçom tirava uma carta de um baralho embaralhado: se vermelha, dava a cada pessoa um chocolate fino embrulhado em papel alumínio, se preta, entregava a conta sem nada. Os autores escolheram um chocolate fino justamente para diferenciá-lo das balas de menta baratas que os restaurantes costumam dar.

O resultado do primeiro experimento: gorjeta média de 17,8% com chocolate e 15,1% sem, uma diferença que os próprios autores calcularam como 18% a mais em dinheiro nas gorjetas daquele restaurante.

O segundo experimento é o que costuma ser citado. Foi feito na primavera de 1998 em um restaurante italiano-americano de padrão mais alto, no centro de Nova Jersey, com 80 grupos (293 clientes no total, de 2 a 12 pessoas por mesa) e uma única garçonete, com cerca de cinco anos de experiência. Ela levava uma cestinha com chocolates Hershey em miniatura e sorteava, de uma pilha de fichas embaralhadas, uma entre quatro instruções:

  • Controle: entregar a conta como de costume, sem oferecer doce.
  • Uma peça: cada cliente escolhia um chocolate da cestinha.
  • Duas peças: cada cliente escolhia dois chocolates de uma vez.
  • Um mais um: cada cliente escolhia um chocolate e, quando a garçonete já estava saindo, ela parava e oferecia a todos a chance de escolher mais um.

Em todos os casos, ela agradecia e saía da mesa em seguida, para evitar contato extra. As condições tinham 20 mesas cada.

Os números, da própria tabela do artigo

CondiçãoGorjeta média (% da conta)Aumento sobre o controle (cálculo nosso)
Sem doce18,95%base
1 peça19,59%cerca de 3%
2 peças21,62%cerca de 14%
1 + 1 (a segunda na saída)22,99%cerca de 21%

A última coluna é aritmética simples sobre a tabela (por exemplo, 22,99 dividido por 18,95), e não um número que o artigo publique para cada condição. Para a condição 1+1, os autores fazem um cálculo equivalente com valores em dólar: as gorjetas de US$ 1.101,02 teriam passado a US$ 1.235,75, o que chamam de aumento de 21%.

Dois pontos sobre o rigor. Primeiro, a diferença entre uma peça e nenhuma é pequena e o estudo não a destaca sozinha: o teste do artigo agrupa as três condições com doce contra a condição sem doce. Segundo, a comparação que mais interessa a quem vende, entre duas peças de uma vez e a mesma quantidade em dois tempos, teve p = 0,02 em teste unicaudal, com tamanho de efeito modesto (r = 0,22). Isso é evidência a favor, não prova definitiva, e vem de 20 mesas por célula e uma só garçonete.

O mecanismo: por que o segundo gesto pesou mais

Os autores partiram de três explicações possíveis: a garçonete causa boa impressão ao dar doce, o doce melhora o humor do cliente, ou o cliente sente a obrigação de retribuir (a reciprocidade descrita por Robert Cialdini em Influence, que o artigo cita na edição de 1993). Cada uma prevê algo diferente. O raciocínio abaixo é o dos autores, e eles o apresentam como o que "parece" explicar melhor, não como prova.

  • Se fosse só impressão de simpatia, a quantidade de doce não deveria importar. Importou: duas peças renderam mais que uma.
  • Se fosse só humor, duas peças de uma vez e um mais um deveriam render o mesmo, porque o cliente recebe a mesma quantidade de doce. Não renderam: o um mais um foi maior.
  • Se fosse reciprocidade, a gorjeta deveria subir com a generosidade aparente da garçonete, e também com o tamanho do grupo, porque mais pessoas recebendo é mais gesto a retribuir. Os autores encontraram as duas coisas, com interações significativas (em testes unicaudais) entre a condição e o tamanho do grupo.

Por isso concluem que a reciprocidade é a explicação mais forte, e não a única possível. Também é uma interpretação dos autores, de um estudo único, e eles mesmos pedem pesquisa futura sobre generalização.

O que a história costuma errar

  • "Eram balas de menta." Eram chocolates: o fino embrulhado no primeiro estudo e miniaturas de marca no segundo. A menta aparece no artigo só como o brinde barato que os restaurantes já costumam dar. Em uma versão popular que li (ERE/TLNT), o caso é contado como o de uma menta de dois centavos.
  • "A gorjeta subiu 23%." O 22,99% é a gorjeta média como percentual da conta. O aumento sobre quem não recebeu doce foi de cerca de 21%. A mesma versão popular também fala em 13% para as duas peças, enquanto a tabela do artigo dá cerca de 14% pela nossa conta.
  • "Foi um restaurante, uma garçonete." Foram dois restaurantes. No segundo, uma garçonete e quatro condições, sorteadas por fichas, com 20 mesas em cada.
  • "O brinde personalizado funciona." O estudo testou doce escolhido pelo cliente, entregue na conta, e a oferta de mais um na saída. Não testou brinde personalizado por pessoa, nem brinde anunciado antes. Quando o texto que você lê afirma que "bônus anunciado vira parte do preço", essa é uma extrapolação, não um resultado do estudo.
  • "É regra de negócio." É gorjeta em restaurante americano, com pagamento no fim da refeição. Os autores registraram que, no segundo experimento, não anotaram sexo de quem pagou nem forma de pagamento.

O que isso muda no seu negócio

Nada do que segue vem do estudo. São hipóteses para testar, a partir de um desenho que isolou uma coisa: a mesma quantidade de brinde, em um ou dois tempos. Para o contexto de preço e oferta, vale ler antes o artigo sobre sticker shock e o guia dos 10 testes da oferta.

  1. Separe o bônus da página do gesto pessoal. O bônus que já está na página de vendas é parte do preço que o cliente compara. O gesto é o que ele não esperava. Liste o que você oferece nas duas categorias.
  2. Guarde um gesto para depois da decisão. No estudo, o segundo doce veio quando o cliente já ia pagar e a garçonete já estava saindo. Um exemplo ilustrativo: um agradecimento com um recurso extra enviado depois da compra, e não dentro da lista de bônus da página.
  3. Faça o gesto ser visivelmente do remetente. No desenho, o que mudou foi a garçonete parar e voltar. Um recurso extra enviado de forma automática em massa tem outro caráter. Teste a versão que parece escolha de uma pessoa.
  4. Meça com grupo de comparação. Como o estudo sorteou as condições, faça igual: sorteie quem recebe o gesto, compare o comportamento seguinte (recompra, indicação, avaliação) e só depois decida se vale a pena.
  5. Corte, não empilhe. Se o seu bônus já está longo, uma hipótese é que acrescentar o terceiro, o quarto e o quinto item rende menos que reservar um gesto fora da lista. Teste os dois contra o controle. O estudo não mediu o empilhamento.

O mesmo princípio de pedir e retribuir aparece em outros casos do Swipe File, como o do pé na porta e o da fila da copiadora.

Quando NÃO usar essa lição

  • Quando o gesto for manipulação disfarçada. O artigo trata o doce como gesto de gratidão. Um "presente" cobrado de volta numa cláusula não é a mesma coisa.
  • Quando o produto ou a entrega estão fracos. Os autores dizem que o efeito foi independente da qualidade do serviço. Leia isso como limite: um doce não substitui um serviço bom, e o estudo não mediu o que acontece quando o serviço é ruim.
  • Em contexto sem a cultura da gorjeta ou da retribuição voluntária. O efeito foi medido em restaurantes dos Estados Unidos, onde o cliente decide o valor no fim da refeição.
  • Quando a decisão do cliente já está tomada e fechada. Se não há uma escolha de valor a influenciar depois do gesto (como a gorjeta), o desenho não se aplica da mesma forma.
  • Quando você usa 21% ou 23% como promessa. É o resultado de 20 mesas, uma garçonete, um restaurante e testes unicaudais. Não é uma taxa para se esperar em outro lugar.

Fontes

Para ver como a eBuz organiza oferta e decisão de compra, comece pelo Mapa de Contexto. Para continuar a leitura, veja os outros casos do Swipe File.

Perguntas frequentes

O que o estudo de Strohmetz e colegas sobre doce e gorjeta mostrou?

Publicado em 2002 no Journal of Applied Social Psychology, o artigo teve dois experimentos em restaurantes dos Estados Unidos. Clientes que receberam chocolate com a conta deram gorjetas maiores. No segundo experimento, a gorjeta média foi de 18,95% sem doce, 19,59% com um chocolate, 21,62% com dois e 22,99% quando o segundo foi oferecido na saída.

Eram balas de menta e a gorjeta subiu 23%?

Não. Os doces foram chocolates (um fino embrulhado no primeiro estudo e miniaturas Hershey no segundo). O 22,99% é a gorjeta média como percentual da conta na condição de um mais um. O aumento sobre as mesas sem doce foi de cerca de 21%, valor que os próprios autores calculam em dólares.

Por que a segunda peça oferecida na saída rendeu mais que duas de uma vez?

Os autores interpretam como reciprocidade: a garçonete parecia ter feito um gesto extra, e o cliente retribuiu na gorjeta. A diferença entre as duas condições teve p = 0,02 em teste unicaudal, com 20 mesas por condição e uma única garçonete. É evidência a favor, não prova definitiva.

Esse resultado vale para bônus em páginas de venda?

O estudo não testou isso. Medir gorjeta em restaurante americano é diferente de comprar online. A ideia de que um bônus anunciado vira parte do preço, enquanto um gesto inesperado pesa mais, é uma hipótese razoável a testar, não um resultado do artigo.