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Victoria Ocampo pagou a revista Sur do próprio bolso: quem paga decide o sumário

Victoria Ocampo sustentou a revista Sur por décadas com o próprio dinheiro. O caso mostra que independência tem boleto, e que quem paga decide o sumário. Com o que a história popular afirma sem fonte.

JonathanJonathan
7 min de leitura1.432 palavras
Capa do artigo sobre Revista Sur, do Swipe File da eBuz

Resposta curta: Victoria Ocampo fundou a revista argentina Sur em 1931 e a sustentou com a fortuna pessoal, o que lhe deu liberdade para publicar quem quis, inclusive Virginia Woolf em espanhol e Albert Camus. A liberdade tinha dono: quem paga decide o sumário, e ali quem pagava era ela. A lição para um negócio de conteúdo é que independência é uma conta que alguém assina, e que, se não for você, o seu sumário passa a ter outro editor.

O caso: uma revista paga por uma pessoa só

Em Buenos Aires, em 1931, Victoria Ocampo fundou a Sur. A enciclopédia que consultei registra que a revista "foi financiada com a fortuna pessoal de Ocampo", e outro texto de divulgação, de Mar del Plata, diz que ela "se come su fortuna en el proyecto", ou seja, gastava o próprio patrimônio no projeto. Na London Review of Books, Daniel Waissbein vai além: segundo ele, ela criou, financiou e dirigiu a revista de forma despótica, do começo ao fim.

O resultado editorial foi notável. Jorge Luis Borges fez parte do conselho editorial, ao lado de Pedro Henríquez Ureña e José Ortega y Gasset. Segundo um texto sobre a revista, os textos de Virginia Woolf foram publicados em espanhol pela primeira vez na Sur, com traduções de Borges para Orlando e Um quarto só seu. A biografia de Ocampo na Wikipedia lista Camus entre os escritores publicados pela revista, ao lado de Sabato, Bioy Casares e Cortázar, entre outros. Segundo a enciclopédia, a revista saiu a cada um ou dois meses até 1971 (outra fonte fala em 1992, e a London Review of Books descreve uma morte lenta nos anos 1970 e 1980; as fontes não se resolvem aqui, por isso o artigo não crava o fim da revista).

Em 1933 nasceu a Editorial Sur, que, segundo uma biografia, tinha o objetivo de ajudar a custear a publicação e a divulgação de literatura. A casa editorial entra na história como uma segunda perna do caixa, não como prova de que a conta fechava.

O boleto tinha o nome dela

O ponto da história é simples. Com a conta paga por ela, a decisão de quem entrava no sumário era dela; a própria LRB diz que ela dirigiu a revista de forma despótica. Waissbein descreve o outro lado da moeda: a fortuna pagava generosamente os colaboradores e sustentava a casa onde autores estrangeiros eram recebidos. Quando a economia argentina piorou, a partir de meados dos anos 1950 e nos anos 1960, segundo ele, ficou mais difícil sustentar o empreendimento. Ele afirma ainda que a Sur distribuía poucas centenas de exemplares, contra cerca de meio milhão do suplemento cultural do jornal La Nación. É um número da fonte, sem confirmação independente.

Essa combinação mostra o mecanismo. Uma publicação sem terceiros que a financiem tem um único ponto de decisão, e esse ponto é também um único ponto de falha: o orçamento de uma pessoa, o gosto de uma pessoa, a paciência de uma pessoa.

Presa em 1953, e a revista seguiu

Nos primeiros dias de maio de 1953, a polícia federal entrou na Villa Victoria, em Mar del Plata, e a levou presa. Ela foi interrogada no Departamento Central de Polícia e mantida no cárcere feminino do Buen Pastor, em San Telmo. Uma única fonte fala em 26 dias, mas a entrada nos "primeiros dias de maio" até 2 de junho daria algo entre 28 e 32 dias, então o número exato fica em aberto. Ela voltou a ser livre na noite de 2 de junho de 1953, depois que Gabriela Mistral e Nehru intervieram e que um comitê internacional pela libertação de intelectuais argentinos se formou no exterior.

Aqui a independência se mostra pelo outro lado. Ninguém com poder sobre o caixa precisou ser convencido a manter a revista, porque o caixa era dela. Em 1955, ela publicou na própria Sur bastidores da detenção, num editorial elogioso à chamada Revolução Libertadora. O canal próprio permitiu que ela contasse a sua versão sem pedir licença a ninguém.

O que a história costuma errar

  • "Ela vendeu joias e imóveis para pagar a revista." Não encontrei fonte que mencione joias. Uma fonte diz que a fortuna de família foi investida em residências e apartamentos que depois foram "malvendidos", sem ligar isso à Sur. Por isso o artigo não afirma nada sobre o que ela vendeu. Também não achei os valores gastos em fonte pública.
  • "Sem anunciante nem partido." Nada do que li trata de anúncios. E a revista tinha posição: segundo a Wikipedia, em 1937 declarou-se abertamente contra o fascismo e, na Guerra Civil Espanhola, ficou ao lado dos republicanos. Foi criticada por nacionalistas e pela esquerda como elitista e europeizante. Independência de patrocinador não é neutralidade.
  • "A revista era um sucesso." Era prestigiosa, não necessariamente grande. A fonte que cita a tiragem fala em poucas centenas de exemplares.
  • "Basta ter uma causa." Sem dinheiro de terceiros, a causa precisou de uma fortuna.

O dado que a história de Ocampo traz para o presente: quase ninguém paga

O outro lado dessa conta é o leitor. O Reuters Institute, no Digital News Report de 2023, estimou que 17% das pessoas pesquisadas pagaram por notícia online numa cesta de 20 países mais ricos, o mesmo valor do ano anterior. A Noruega teve 39%, e Japão e Reino Unido 9% cada. "Pagar" ali inclui assinatura, doação ou pagamento único, segundo a cobertura do Press Gazette. A nota do gráfico fala em amostra de cerca de 2.000 pessoas por país (a nota lista 21 países, o texto fala em 20), sobre notícia, não sobre newsletter, livro ou curso. Serve de ordem de grandeza: mesmo em mercados ricos, a maioria não paga.

Isso explica por que quem deseja independência costuma acabar com duas opções: um mecenas (que decide o sumário) ou um público pequeno e pagante (que também influencia, mas é diluído em muitas pessoas).

O que isso muda no seu negócio

O caso de Ocampo é de uma herdeira em outra época. O que segue são hipóteses de aplicação, não resultados do caso:

  1. Liste quem paga o seu sumário hoje. Plataforma, patrocinador, algoritmo, um único cliente grande. Se um deles pudesse mudar o que você publica, ele já é o seu editor.
  2. Calcule a sua conta de independência. Quanto por mês custa publicar sem depender de ninguém, e quantos pagantes cobrem esse número. Se a conta só fecha com o seu dinheiro, isso é o seu "caso Ocampo" e tem prazo.
  3. Troque um único pagador por vários pequenos. O desenho do argumento dos mil fãs verdadeiros vai nessa direção: muitos pagantes, nenhum com poder de veto.
  4. Ponha o canal no seu nome. Lista de e-mail, site e contato direto, em vez de depender só de um alcance emprestado. O guia de como monetizar conhecimento ajuda a pensar a ordem das ofertas.
  5. Teste a sua tolerância. Exemplo ilustrativo: se um patrocinador pagasse o dobro por uma mudança de pauta, você aceitaria? Responder antes, por escrito, evita decidir sob pressão.

Quando NÃO usar essa lição

  • Quando o seu projeto ainda não tem audiência. Recusar patrocínio sem ter pagantes é fechar uma porta sem abrir outra.
  • Quando você quer a mesma coisa que o mecenas quer. Se a pauta do patrocinador e a sua coincidem, o risco é menor.
  • Para extrair um número. Os 17% da Reuters são sobre notícia, em países ricos. Não são uma taxa de conversão para o seu produto.
  • Como receita de heroísmo. O caso não mostra que gastar o patrimônio pessoal seja boa estratégia, só que foi possível para ela.

Fontes

Para continuar a leitura, veja os outros casos do Swipe File e a página Máquina de Livros, sobre construir um ativo seu.

Perguntas frequentes

Quem financiou a revista Sur?

Segundo a enciclopédia e dois textos lidos, a revista, fundada por Victoria Ocampo em 1931, foi financiada com a fortuna pessoal dela. Em 1933 surgiu a Editorial Sur, criada, segundo uma biografia, para ajudar a custear a publicação. Não achei fonte pública com os valores gastos.

Victoria Ocampo vendeu joias para pagar a Sur?

Não encontrei fonte que afirme isso. Uma fonte diz que a fortuna dela foi investida em residências e apartamentos que depois foram malvendidos, sem ligar isso à revista. Por isso o artigo não afirma o que ela vendeu, só que a fortuna pessoal sustentou a Sur.

Quanto tempo Victoria Ocampo ficou presa em 1953?

Uma única fonte fala em 26 dias no cárcere feminino do Buen Pastor, em San Telmo. Outra diz que ela foi presa nos primeiros dias de maio, em Mar del Plata, e libertada na noite de 2 de junho de 1953, o que daria 28 a 32 dias. A data exata da entrada não aparece nas fontes que li, então o número fica em aberto.

Quantas pessoas pagam por notícia online?

O Digital News Report 2023, do Reuters Institute, estimou 17% das pessoas pesquisadas numa cesta de 20 países mais ricos, igual ao ano anterior. Noruega teve 39%, Japão e Reino Unido 9%. Pagar inclui assinatura, doação ou pagamento único, e o dado é sobre notícia.