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1.000 fãs verdadeiros: a conta é de lucro, e o próprio Kelly pediu provas

O ensaio dos 1.000 fãs verdadeiros virou slogan. O texto original traz uma conta de lucro, uma condição de relação direta e uma retratação parcial do próprio Kevin Kelly, semanas depois.

JonathanJonathan
8 min de leitura1.562 palavras
Capa do artigo sobre 1.000 Fãs Verdadeiros, do Swipe File da eBuz

Resposta curta: no ensaio "1,000 True Fans" (2008), Kevin Kelly define fã verdadeiro como quem compra tudo o que você produz e calcula que 1.000 deles, rendendo cerca de US$ 100 de lucro por ano cada um, sustentam um criador. A conta é de lucro, não de faturamento, e Kelly deixou claro que 1.000 é ordem de grandeza. Semanas depois, ele mesmo escreveu que havia pouca evidência de gente vivendo só disso. A lição que sobra é a de relevância e relação direta com poucos, não uma promessa de renda.

O caso: um ensaio de 2008

O ensaio foi publicado no blog The Technium, de Kevin Kelly, em 4 de março de 2008. Kelly foi executive editor da Wired desde o lançamento da revista, em 1993, até 1999, segundo a biografia dele no Edge. A página atual do ensaio mostra uma versão reescrita, sem data, e o original de 2008, que Kelly diz ser mais histórico.

A definição é curta: na versão atual, fã verdadeiro é um fã que compra tudo o que você produz. Kelly dá exemplos de quem compra a edição de capa dura, a de bolso e o audiolivro, compra a próxima figura colecionável sem ver antes e paga pelo DVD de melhores momentos de um canal gratuito.

A conta, no texto, é esta:

  • Cerca de US$ 100 de lucro por fã por ano.
  • 1.000 fãs, portanto US$ 100.000 por ano, o que Kelly descreve como o suficiente para viver para a maioria das pessoas, mas não para fazer fortuna.
  • Com US$ 50 por fã, são 2.000 fãs. Com US$ 200, são 500.
  • Duplas e equipes precisam de mais fãs, em proporção ao tamanho.

No original, a referência para o valor anual é um dia de salário. E há uma condição que muita gente pula: o fã precisa pagar direto ao criador. Quando há intermediário (gravadora, editora, varejista), Kelly diz que o criador precisa de muito mais fãs para viver.

O mecanismo: poucos, próximos e diretos

O argumento de Kelly tem três peças, e as três precisam estar de pé.

  1. Intensidade. O fã verdadeiro não compra um item. Compra a categoria inteira do que você faz. Por isso 1.000 pessoas pesam mais do que um público enorme de gente que curte e passa.
  2. Relação direta. O dinheiro vai de quem compra para quem criou, sem repartição. É a parte que liga o ensaio à ideia de canal próprio: sem um caminho que você controle até essas pessoas, o número de fãs necessário sobe.
  3. Ordem de grandeza. Kelly escreve que o número 1.000 não é absoluto e que o que importa é a ordem de grandeza. No original, admite que a fórmula pode errar por uma ordem de grandeza e diz que, mesmo assim, é muito menos que um milhão. Ele sugere que 500 pode servir a um pintor e 5.000 a um videomaker, e que blog e livro pedem mais fãs, porque a receita passa por anúncio ou por intermediário.

Repare no que a conta não diz. Não diz que mil seguidores viram mil fãs. Não diz que qualquer pessoa com um nicho chega lá. Diz o que seria preciso, se você tivesse fãs desse tipo e vendesse a eles diretamente.

O que o próprio Kelly escreveu depois

Aqui está a parte que quase nunca chega na versão popular. Em 21 de abril de 2008, Kelly publicou "The Reality of Depending on True Fans", admitindo que a tese tinha poucos dados reais e dando a palavra a um músico que tentou o modelo.

Robert Rich, músico de ambient que se autopublica desde 1981, tinha cerca de 600 "fãs verdadeiros" e 2.000 ouvintes sérios numa base de uns 3.000 nomes. Mesmo assim, escreveu que o máximo que tirava de um ano de esforço era US$ 10.000, e concluiu que aquilo não era viver. Ele cita pirataria (uns 500 fãs sérios na Rússia que nunca pagaram), metade do dia gasta com e-mail e o crédito a uma gravadora, a Hearts of Space, pelo alcance que sustentou as vendas dele.

Em 27 de abril, Kelly voltou ao assunto em "The Case Against 1000 True Fans". Ele atribui ideias parecidas a Brian Austin Whitney (2004) e a Scott Andrew (2005), conta que reuniu dados financeiros sólidos de 7 criadores e perfis parciais de cerca de duas dúzias, e conclui que são muito poucos os artistas que vivem só da venda direta a fãs verdadeiros. Escreve que achar, cultivar, gerenciar e atender esses fãs por conta própria toma muito tempo. E lança um desafio: se ninguém apontar um músico sem ligação com a mídia tradicional que viva 100% desse modelo, ele cede o caso a Jaron Lanier, cuja pesquisa não achou músico nessa condição. A página não diz se alguém respondeu, e eu não vi esse desfecho.

O que a história costuma errar

  • "Mil fãs, cem mil dólares." Os US$ 100 são de lucro por fã. Faturamento e lucro não são a mesma coisa.
  • Misturar fã com seguidor. Para Kelly, fã verdadeiro compra tudo o que você faz. Seguidor que curte não entra na conta.
  • Tratar 1.000 como número exato. O autor chama de ordem de grandeza e dá faixas de 500 a 5.000 conforme o ofício.
  • Esquecer o "pague direto". Sem relação direta, a conta não vale.
  • Ignorar a retratação parcial. Kelly reconheceu pouca evidência e poucos casos de sustento integral.
  • Tratar a ideia como invenção dele. O próprio Kelly cita antecessores na "Case Against".

As críticas

Em 14 de março de 2008, o Techdirt registrou a objeção de John Scalzi de que, feita a conta, os números não fecham. O texto do Techdirt não traz os números do Scalzi. Mike Masnick, o autor, achou que Kelly talvez tenha sido um pouco ansioso demais ao cravar 1.000, mas defendeu que focar nos fãs verdadeiros segue valendo.

Em 2022, Dave Karpf escreveu que US$ 100 mil brutos perdem fatia para imposto de autônomo, plano de saúde e custo de vida, e que, em 2022, 1.000 fãs provavelmente não bastam. É uma opinião. Ele considera a ideia uma filosofia inspiradora, mas uma péssima política social, e defende financiamento público das artes no lugar dela. Serve como lembrete: a conta de Kelly é bruta, e o seu custo de vida é seu.

O que isso muda no seu negócio

Nada abaixo é promessa de resultado. São hipóteses para testar com o seu público.

  1. Conte compradores, não seguidores. Liste quantas pessoas já compraram de você mais de uma vez. Esse é o seu ponto de partida real. Se o número é pequeno, ele é o dado mais útil que você tem.
  2. Faça a conta com o seu valor. Exemplo ilustrativo: 1.000 pessoas pagando R$ 500 por ano somam R$ 500 mil de receita bruta. Desconte custos e imposto antes de tratar como renda, e troque os números pelos seus. O ponto da conta é descobrir quantas pessoas você precisa, não confirmar um sonho.
  3. Construa um caminho direto até quem compra. Uma lista de e-mail ou de contatos que você controla é a versão prática da "relação direta" de Kelly. Para estruturar a lista e a oferta, veja o artigo sobre lista, oferta e copy.
  4. Dê ao fã mais de uma coisa para comprar. O fã verdadeiro, na definição, compra tudo. Se você só tem um produto, a conta não fecha por falta de oferta. O texto sobre front-end e back-end ajuda a pensar a escada de produtos.
  5. Meça o tempo de atendimento. Kelly e Rich apontam o custo de achar, cultivar e atender fãs. Anote quantas horas por semana isso consome e compare com o que entra.

Para ligar a lição a um modelo de negócio maior, vale ler como monetizar conhecimento e os outros casos do Swipe File.

Quando NÃO usar essa lição

  • Quando você vende por intermediário. Marketplace, plataforma ou editora levam parte, e Kelly diz que a conta pede mais fãs.
  • Quando o ofício tem ticket baixo e pouca recompra. A conta depende de gente que compra várias vezes. Sem recompra, o modelo não se sustenta nos números dele.
  • Quando você precisa de renda previsível já. O próprio Kelly encontrou poucos casos de sustento integral e o músico que testou não vivia do modelo.
  • Quando você não quer lidar com os fãs. Kelly diz que quem não quer gerenciar fãs precisa de um mediador, e a conta sobe.
  • Quando a conta serve de desculpa para não crescer. Ela descreve um mínimo para viver do ofício, não uma meta de crescimento.

Fontes

Perguntas frequentes

O que é um fã verdadeiro segundo Kevin Kelly?

Na versão atual do ensaio, é um fã que compra tudo o que você produz. Kelly dá exemplos como comprar a edição de capa dura, a de bolso e o audiolivro, ir ao show e comprar o produto de lembrança. Não é o mesmo que seguidor: quem só curte e passa não entra na conta.

Qual é a conta dos 1.000 fãs verdadeiros?

Cerca de US$ 100 de lucro por fã por ano, vezes 1.000 fãs, dá US$ 100.000 por ano. Com US$ 50 por fã são necessários 2.000, e com US$ 200 bastam 500. É lucro, não faturamento, e o fã precisa pagar direto ao criador, sem intermediário.

O número 1.000 é exato?

Não. Kelly escreve que o número não é absoluto e, no original de 2008, que a fórmula pode errar por uma ordem de grandeza. Ele sugere 500 para um pintor e 5.000 para um videomaker, e diz que blog e livro pedem mais fãs, porque a receita passa por anúncio ou intermediário.

Kelly confirmou que a teoria funciona na prática?

Só em parte. Em abril de 2008 ele admitiu que a tese tinha poucos dados e, depois de reunir informações de 7 criadores e perfis parciais de cerca de duas dúzias, escreveu que são muito poucos os artistas que vivem só da venda direta a fãs verdadeiros.