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Tangerine foi gravado com iPhone, mas o iPhone foi a parte mais barata

O filme gravado com iPhone virou exemplo de que equipamento não importa. As fontes mostram outra coisa: um celular, um adaptador de lente, meses de oficinas de roteiro e uma decisão guiada pela história.

JonathanJonathan
7 min de leitura1.396 palavras
Capa do artigo sobre Tangerine no iPhone, do Swipe File da eBuz

Resposta curta: Tangerine, o filme de Sean Baker que estreou no Sundance em 2015, foi gravado com iPhone 5s, mas o aparelho foi só uma peça de um conjunto escolhido e testado: adaptador de lente anamórfica, aplicativo de controle manual, estabilizador, luz de bateria e som cuidado, com cerca de US$ 100 mil de orçamento e meses de oficinas de roteiro com o elenco. O caso não prova que qualquer celular basta. Mostra que o equipamento foi decidido pelo que a história precisava, e não o contrário.

O caso: um filme de Sundance no celular

Tangerine estreou em 23 de janeiro de 2015, na mostra NEXT do Sundance. Quatro dias depois, em 27 de janeiro, a Magnolia Pictures comprou os direitos mundiais, e o filme entrou em cartaz limitado nos Estados Unidos em 10 de julho de 2015, segundo a Wikipedia. A história acompanha duas mulheres trans que trabalham nas ruas de Los Angeles. Mya Taylor ganhou o prêmio Independent Spirit de melhor atriz coadjuvante pelo papel.

O que virou manchete foi a câmera. O filme foi gravado com iPhone 5s. Segundo a Videomaker, o crédito de abertura da estreia anunciava isso, junto com os adaptadores anamórficos usados. O número de aparelhos varia entre as fontes: BGR, Life in Lo-Fi e Wikipedia falam em três iPhones, enquanto a reportagem do No Film School com o diretor de fotografia e a do Wrapbook não informam quantos foram. Por isso não vou fixar esse número.

O que foi comprado antes de gravar

A história popular termina em "gravado com um iPhone". As fontes que li contam o resto:

  • Adaptador anamórfico da Moondog Labs. Segundo a Videomaker, ele custa cerca de US$ 160 e transforma o vídeo de formato 16:9 em uma imagem de proporção próxima de 2,40:1, a janela larga do cinema. Baker disse, na estreia, que não teria feito o filme sem ele (página da Moondog Labs, do próprio fabricante do adaptador).
  • Aplicativo FiLMiC Pro. Permite travar exposição, foco e balanço de branco. A Wrapbook o descreve como um aplicativo de cerca de US$ 8 na época.
  • Estabilizador. Um Steadicam Smoothee, e uma bicicleta de dez marchas servindo de carrinho de câmera, segundo a Videomaker.
  • Luz. Quase tudo com luz natural, mais três painéis LitePad a bateria. O diretor de fotografia Radium Cheung diz que não havia tripés de luz nem refletores convencionais (No Film School).
  • Som. O No Film School informa que a equipe investiu em equipamento de som de nível alto, porque som ruim derruba um filme mesmo com câmera simples.
  • Equipe mínima. A Wrapbook registra que não havia eletricista-chefe nem maquinista-chefe, e que Baker acumulou funções de produção, fotografia, câmera, elenco e edição.

Ou seja: o celular era a peça barata do conjunto. As peças decisivas foram escolhidas com critério.

Por que o iPhone: a razão que a fonte dá

Em entrevista ao LAist, Baker resume a razão da escolha: faltava dinheiro e câmeras melhores não estavam ao alcance. O orçamento era de cerca de US$ 100 mil, bancado pela Duplass Brothers Productions, segundo a Wrapbook e a Videomaker (é uma estimativa, não um número oficial). Com isso, câmeras de cinema não cabiam. Segundo a Wikipedia, o dinheiro poupado em equipamento foi usado para pagar figurantes e locações.

Isso importa porque a versão romântica diz que foi uma escolha de estilo, uma aposta estética. A fonte direta diz que foi restrição. O estilo veio depois, quando Baker transformou a restrição em método.

Onde a história aconteceu de fato: personagens e ensaio

Segundo o LAist, Baker conheceu Mya Taylor, que levou Kitana Kiki Rodriguez ao projeto, antes de ter a trama. Baker disse a elas que escreveriam personagens para as duas interpretarem. A ideia inicial era só um dia de duração e um final em uma lanchonete de donuts. A trama de um dos conflitos centrais nasceu de uma sugestão de Rodriguez, baseada em algo que quase aconteceu na vida real dela.

A Wrapbook fala em meses de oficinas do roteiro antes das filmagens. Na sessão de perguntas da estreia, segundo a Moondog Labs, Baker contou que o elenco de estreantes, vindo de um centro comunitário local, opinou no roteiro e nos diálogos. Nada disso depende de câmera. É o trabalho que sustenta o que a câmera registra.

O que a história costuma errar

A versão que circulaO que as fontes mostram
"Foi gravado com um celular."Foi um celular mais adaptador anamórfico, aplicativo manual, estabilizador, luz de bateria e som cuidado.
"Qualquer pessoa pode fazer isso."Baker já tinha feito antes quatro filmes de microorçamento, segundo a Wrapbook, e o filme teve cerca de US$ 100 mil e meses de oficinas de roteiro.
"Foi uma escolha criativa."O diretor disse ao LAist que a razão foi falta de dinheiro. A escolha criativa foi o que fazer com o limite.
"Três iPhones."Algumas fontes dizem três, outras não informam o número. Sem fonte primária que resolva.
"O equipamento não importa."Baker disse que não teria feito o filme sem o adaptador. Importa a peça certa, não a mais cara.

O resultado comercial também não é argumento de que o método sempre funciona: a Wrapbook estima cerca de US$ 936 mil de bilheteria mundial, e a Wikipedia traz um número muito próximo. É um caso de sucesso isolado, e um exemplo isolado não é uma regra.

O que isso muda no seu negócio

Estas são hipóteses para testar, não resultados garantidos:

  1. Escreva o que a sua história exige da imagem e do som. Baker precisava de mobilidade, de um visual largo e de passar despercebido na calçada. Com isso, a lista de compras encolheu sozinha. Faça a sua lista a partir da cena, não do catálogo.
  2. Escolha uma peça que muda o resultado e teste antes de comprar o resto. No caso, foi o adaptador. Para quem grava vídeo ou áudio de aula, pode ser um microfone de lapela, e não a câmera. Compare duas gravações de trinta segundos antes de decidir.
  3. Corte o que o público não percebe. Sem refletores convencionais, sem tripés de luz, sem equipe grande. Mas o som ficou. Pergunte do que o seu leitor, aluno ou espectador reclama primeiro.
  4. Trabalhe o conteúdo antes do aparelho. Oficinas de roteiro, personagens reais. Para um criador de conteúdo, o equivalente é ter três temas e dez frases boas antes de abrir o gravador.
  5. Marque uma data para publicar com o que tiver. Se o primeiro vídeo ou texto sair com o equipamento atual, você descobre qual limite realmente incomoda. O exemplo ilustrativo: grave um vídeo de dois minutos com o celular que você já tem, mostre a três pessoas e pergunte o que atrapalhou. A resposta diz o que comprar, se algo precisar.

Para o lado oposto da mesma ideia, o artigo sobre a loja que reduziu as opções mostra como reduzir a escolha pode destravar a ação, e o texto sobre corte radical trata do que sobra depois de tirar o que não serve. Outros casos estão em Swipe File.

Quando NÃO usar essa lição

  • Quando o produto é a imagem ou o som. Se você vende fotografia, música, curso de edição ou qualquer coisa em que a qualidade técnica é a entrega, o equipamento é parte do produto.
  • Quando o limite já é conhecido. Se o celular não capta bem o seu ambiente (som em local ruidoso, pouca luz), insistir nele é desperdício, não método.
  • Quando "começar com o que tem" vira desculpa para não preparar. O caso tem meses de oficinas de roteiro. Começar simples não dispensa o trabalho de conteúdo.
  • Quando se espera o mesmo resultado. Um sucesso de festival não indica a chance de qualquer projeto parecido.

Fontes

  • Wrapbook, orçamento de Tangerine: estimativa de cerca de US$ 100 mil, financiamento da Duplass Brothers, FiLMiC Pro, Steadicam Smoothee, equipe mínima, bilheteria.
  • Videomaker: crédito da estreia, adaptador Moondog de US$ 160, luz a bateria, bicicleta como carrinho, edição.
  • No Film School: entrevista com Baker e Cheung sobre luz, foco, enquadramento e som.
  • LAist: Baker sobre a razão da escolha (falta de dinheiro) e sobre criar os personagens antes da trama.
  • Moondog Labs: falas de Baker na estreia, incluindo que não teria feito o filme sem o adaptador.
  • Wikipedia, Tangerine: datas de estreia e compra pela Magnolia, orçamento, premiações, três aparelhos (afirmação de fonte secundária).
  • Life in Lo-Fi: número de iPhones, protótipo do adaptador e uso do Steadicam.

Perguntas frequentes

Tangerine foi mesmo gravado só com iPhone?

Foi gravado com iPhone 5s, mas não só com o aparelho. As fontes citam adaptador de lente anamórfica da Moondog Labs, o aplicativo FiLMiC Pro, um estabilizador Steadicam Smoothee, painéis de luz a bateria e investimento em som. O orçamento estimado foi de cerca de US$ 100 mil.

Por que Sean Baker escolheu o iPhone?

Segundo entrevista ao LAist, a razão principal foi a falta de dinheiro. Câmeras melhores não estavam ao alcance. Segundo a Wikipedia, o dinheiro poupado em equipamento pagou figurantes e locações. O estilo veio depois, como resposta ao limite.

Quantos iPhones foram usados em Tangerine?

As fontes divergem. BGR, Life in Lo-Fi e Wikipedia falam em três iPhone 5s. A reportagem do No Film School com o diretor de fotografia e a do Wrapbook não informam o número. Não encontrei uma fonte primária que resolva a diferença, então o número exato fica em aberto.

O caso Tangerine prova que equipamento não importa?

Não. Baker disse que não teria feito o filme sem o adaptador anamórfico, e a equipe cuidou de luz, estabilização e som. O que o caso mostra é que cada peça foi escolhida pelo que a história exigia, com custo baixo, e que o trabalho de roteiro e elenco veio antes da câmera.