Resposta curta: Machado de Assis publicou Memórias Póstumas de Brás Cubas aos pedaços na Revista Brasileira, de março a dezembro de 1880, e só depois o lançou em livro, em 1881. Ao virar livro, o texto foi revisto: dois capítulos saíram, dois foram fundidos, a epígrafe de Shakespeare desapareceu e entraram o "Ao leitor" e a dedicatória ao verme. As fontes lidas documentam a revisão do autor, não uma mudança pedida por leitores.
O caso: um romance entregue de quinze em quinze dias
A primeira publicação do romance foi na Revista Brasileira, a partir da página 353 do terceiro tomo, no número de 15 de março de 1880. Segundo o quadro de equivalência de capítulos montado por Gracinéa Oliveira e José Américo Miranda (2023), os números seguintes saíram no dia 1º e no dia 15 de cada mês, com capítulos em quase todos. Duas exceções: os números de 15 de junho e de 15 de novembro não trazem capítulo nenhum. O fim chega em 15 de dezembro, no último bloco.
O livro saiu em janeiro de 1881. O site de pesquisa em Machado de Assis da Universidade Brigham Young traz as duas datas (março a dezembro de 1880 e janeiro de 1881), e um artigo de Lainister Esteves (2021) confirma o folhetim de 1880 e o livro de 1881.
Um detalhe muda a leitura do caso: para o próprio Machado, a publicação na revista era a primeira edição. As pesquisadoras lembram que o livro de 1881 é, portanto, a segunda, e que a de 1896, a chamada "terceira edição", conta a revista como a primeira. Quem diz que o romance "estreou em livro em 1881" está certo sobre o livro e errado sobre a estreia.
O que mudou entre a revista e o livro
Não existe original sobrevivente do romance (a exceção é o fac-símile de um capítulo), então a comparação só pode ser feita entre os impressos. A comparação foi feita pelas pesquisadoras, capítulo a capítulo. O que elas registram:
- Interferências do autor. A edição em livro traz, nas palavras delas, "numerosas interferências do autor no texto".
- Capítulos. A maioria mantém título e conteúdo. Três tiveram o título alterado, dois foram fundidos em um só (os capítulos LX e LXI da revista viraram o LIX do livro) e dois foram suprimidos (XVI e CXLII). A revista termina no capítulo CLXII, e o livro, no CLX.
- A epígrafe. No folhetim, logo abaixo do título, havia uma frase de Shakespeare, de As You Like It, em que o falante diz que só quer criticar a si mesmo, de quem conhece os defeitos. Ela não está no livro e nunca foi retomada.
- O que entrou. No folhetim não havia o "Ao leitor" nem a dedicatória "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes". As duas peças passaram a fazer parte da obra a partir da edição em livro.
Dizer que o livro saiu "mais enxuto" é, portanto, só metade da história: houve corte em capítulos e na epígrafe, mas também houve acréscimo das peças mais citadas do romance.
O que o próprio Machado disse
No prólogo da edição de 1896, citado pelas duas fontes acadêmicas, Machado escreveu, na grafia da época: a primeira edição foi "feita aos pedaços na Revista Brazileira, pelos annos de 1880", e, "postas mais tarde em livro, corrigi o texto em varios logares". Ele acrescenta que, para a terceira edição, emendou mais um pouco e suprimiu "duas ou tres duzias de linhas".
Note o cuidado com as datas: as "duas ou três dúzias de linhas" são da revisão de 1896, não da passagem da revista para o livro. A revisão de 1881 é a que o quadro de capítulos documenta.
O que a história costuma errar
- "O livro de 1881 é a primeira edição." Para o autor, era a segunda. A revista foi a primeira.
- "Machado só cortou." Cortou, fundiu e tirou a epígrafe, mas também acrescentou "Ao leitor" e a dedicatória ao verme.
- "As correções vieram dos leitores." Nas fontes que li, o que está documentado é a revisão do autor. Não encontrei carta de leitor que o tenha feito mudar um capítulo, e as fontes não afirmam isso.
- "As duas ou três dúzias de linhas foram cortadas de 1880 para 1881." Foram de 1896.
- "Sabemos exatamente o que ele mudou, palavra por palavra." Sem original sobrevivente, só dá para comparar impressos, e o quadro lido cobre a estrutura dos capítulos, não cada frase.
O mecanismo: por que publicar em partes ajuda a revisar
O que as fontes provam é uma sequência: Machado publicou em partes, depois revisou ao fazer o livro, e o resultado foi um texto diferente do da revista. O resto é interpretação, e vale rotulá-la como tal. A hipótese razoável é que o intervalo entre a publicação e o livro deu a ele uma distância que um manuscrito na gaveta não dá, porque um texto impresso já saiu da cabeça do autor e pode ser lido como o de outra pessoa. É uma hipótese sobre o método, não um fato documentado sobre a cabeça do Machado.
Há também uma ressalva a fazer sobre a ideia de que "testar melhora". Ronny Kohavi, então responsável pela plataforma de experimentos da Microsoft, apresentou em 2009 um tutorial com os resultados de experimentos controlados da empresa: cerca de um terço das ideias melhorou a métrica, um terço ficou neutro e um terço piorou. Em outras palavras, a maior parte das ideias não melhora o que deveria melhorar. Uma publicação do Bing, de 2013, repete que menos de um terço move as métricas que queria mover. Isso vem de experimentos em sites, com métrica e grupo de controle, e não de literatura. A relação com Machado é de analogia: soltar algo em partes e olhar o que acontece é uma forma barata de descobrir que a ideia não era tão boa quanto parecia.
O que isso muda no seu negócio
Para quem produz livro, curso ou produto e não consegue lançar, as fontes sugerem hipóteses, não promessas. Teste uma ou duas e meça.
- Divida a entrega em partes com data. Escolha uma cadência que você consiga manter (quinzenal, como na revista, é só um exemplo) e publique a primeira parte antes de a obra estar fechada. Compare com o ritmo de quando você trabalhava sem data.
- Reserve um dia de revisão depois de cada parte. Antes de seguir para a próxima, releia o que saiu como se fosse de outra pessoa e anote o que cortaria.
- Decida o que só entra na versão final. O "Ao leitor" e a dedicatória só aparecem no livro, não no folhetim. Separe o que precisa existir na primeira parte do que pode vir depois.
- Defina a métrica antes de soltar. Pode ser quantas pessoas chegam à parte seguinte ou quantas respondem. Sem isso, a publicação em partes vira só adiamento.
- Corte com critério. Na passagem para o livro, o autor suprimiu capítulos. Pergunte, para cada parte: o livro final perde alguma coisa se ela sair?
Para ver como esse raciocínio aparece em outros casos, leia o funil de Deming e a medição diária e apronte, atire, mire. Se o seu projeto é um livro, comece pela Máquina de Livros.
Quando NÃO usar essa lição
- Quando a obra só funciona inteira. Uma peça que depende de uma virada final pode perder força em partes.
- Quando você não vai manter a cadência. Uma série que para na quinta parte é pior do que um lançamento único.
- Quando você espera que o público corrija o seu texto. No caso lido, a revisão foi do autor, e nenhuma fonte mostra o leitor mudando um capítulo.
- Quando o prazo de revisão é curto. A distância que ajuda a revisar vem com tempo. Sem tempo, as partes só repetem o texto com os mesmos erros.
- Quando você quer usar os números do Kohavi como prova. Eles vêm de experimentos em sites da Microsoft e do Bing, não de livros.
Fontes
- Oliveira e Miranda (2023), Revista Linguística, 19(1), 95-109: o quadro de equivalência de capítulos, a epígrafe, "Ao leitor", "Ao verme", as datas dos números e o prólogo de 1896.
- Machado de Assis (Brigham Young University): Memórias Póstumas de Brás Cubas: publicação na revista de março a dezembro de 1880 e em livro em janeiro de 1881.
- Esteves (2021), Revista de Estudos de Cultura, 7(18): confirma o folhetim na Revista Brasileira (março a dezembro de 1880), o livro de 1881 e traz o prólogo de Machado em grafia atual.
- Kohavi, tutorial de 2009, Microsoft Experimentation Platform (slides): um terço das ideias melhorou a métrica, um terço ficou neutro e um terço piorou.
- Bing, Large Scale Experimentation at Bing (2013): menos de um terço das ideias move as métricas que queria mover.
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