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Fotografar prejudica a memória? O que Henkel e Diehl dizem e o que isso muda no seu registro

Dois estudos sobre fotografar parecem brigar: um mediu memória, o outro mediu prazer. Veja o que cada um fez, o que os próprios autores dizem que não testaram e como transformar isso em um diário de mudanças para o seu negócio.

JonathanJonathan
8 min de leitura1.681 palavras
Capa do artigo sobre Foto e memória, do Swipe File da eBuz

Resposta curta: os dois estudos mais citados sobre fotografar não brigam, porque medem coisas diferentes. Henkel (2014) mediu o que as pessoas lembravam dos objetos de um museu no dia seguinte e achou menos memória para o que foi fotografado por inteiro. Diehl, Zauberman e Barasch (2016) mediram o prazer e o engajamento durante a experiência e acharam mais nos que fotografaram. Para o seu negócio, a lição prática é que a memória não registra sozinha o que mudou, então vale escrever, na hora, um diário curto de mudanças para explicar quedas e picos depois.

O caso: duas conclusões que parecem se contradizer

A discussão circula assim: de um lado, quem fotografa tudo "sai do momento". Do outro, alguém agradece, anos depois, por cada foto que tirou. Cada lado costuma citar um estudo. Os dois existem e foram publicados em revistas científicas, mas respondem a perguntas diferentes.

Vale separar três coisas antes de decidir quem tem razão: o que cada pesquisa pediu que as pessoas fizessem, o que ela mediu e o que ela própria diz que não mediu.

Estudo 1: Henkel e o museu

Linda Henkel, da Fairfield University, publicou em 2014, na revista Psychological Science, dois experimentos feitos em um tour guiado por um museu de arte. Os participantes recebiam a instrução de apenas observar alguns objetos e de fotografar outros. No dia seguinte, eram testados sobre o que lembravam.

O resultado que ficou conhecido tem nome: efeito de prejuízo por fotografar (photo-taking impairment effect). Quando a pessoa fotografava o objeto inteiro, lembrava depois de menos objetos e de menos detalhes sobre eles e sobre onde estavam no museu, em comparação com os objetos que só tinha observado.

Há dois detalhes que a versão popular perde:

  • Quem decidia o que fotografar era a pesquisadora. Os participantes recebiam a instrução de qual objeto fotografar. É um desenho controlado, que não reproduz o visitante que escolhe o que lhe interessa.
  • Dar zoom anulou o efeito. Quando os participantes fotografavam uma parte específica do objeto, o prejuízo não apareceu, e a lembrança do que ficou fora do enquadramento foi tão boa quanto a do que ficou dentro. Henkel interpreta que a atenção extra de escolher e enquadrar um detalhe pode cancelar o efeito.

Segundo a leitura dos autores do estudo seguinte, o prejuízo apareceu no reconhecimento, e não na recordação livre.

Estudo 2: Diehl, Zauberman e Barasch

Em 2016, a equipe de Kristin Diehl, Gal Zauberman e Alixandra Barasch divulgou no Journal of Personality and Social Psychology nove estudos, três de campo e seis de laboratório, com 2.005 participantes no total. Os participantes eram sorteados para fotografar ou não durante atividades como um tour real de ônibus de dois andares, em dois estudos de campo, ou vídeos de tours em primeira pessoa, em laboratório. Depois, avaliavam o quanto tinham aproveitado e o quanto tinham se envolvido.

Na regra geral, quem fotografou aproveitou mais uma experiência positiva, e o mecanismo apontado é o engajamento: fotografar leva a olhar com mais atenção para o que merece ser fotografado. Em um dos experimentos de laboratório, em que estudantes assistiam a vídeos de tours de ônibus por Londres e Hollywood e podiam tirar fotos clicando em um ícone de câmera, a nota média de prazer foi 4,06 no grupo que fotografou e 3,62 no que não fotografou. Os autores também mediram uma semana depois: quem fotografou manteve o prazer, e quem não fotografou teve uma queda. Ninguém tinha revisitado as fotos nesse intervalo.

O mesmo artigo traz os limites, e eles importam:

  • O efeito é menor quando a experiência já engaja por si só.
  • Ele é menos provável quando a câmera atrapalha a experiência.
  • Em experiências negativas, o maior engajamento piorou a avaliação.

Por que os dois não brigam

A diferença fica clara em uma tabela:

Henkel (2014)Diehl et al. (2016)
O que mediuLembrança dos objetos e dos detalhes, no dia seguintePrazer e engajamento, durante e até uma semana depois
Quem escolhia as fotosA pesquisadora indicava quais objetos fotografarO participante escolhia o que fotografar
ResultadoMenos memória do que foi fotografado por inteiroMais prazer em experiências positivas
O que o estudo diz que não testouFotografar por escolha própria, na vida realMemória do conteúdo da experiência

A última linha é a que resolve a aparente briga. Diehl e colegas escrevem no próprio artigo que o efeito sobre a memória do conteúdo ficou fora do escopo, citam Henkel como o trabalho que examinou isso e deixam em aberto o que acontece quando a pessoa escolhe sozinha o que fotografar. Ou seja, é possível, ao mesmo tempo, aproveitar mais enquanto fotografa e lembrar menos dos detalhes do que foi fotografado por instrução. Nenhum dos dois estudos prova o contrário do outro.

Um alerta de método: um é estudo de museu com instruções dadas e o outro é conjunto de experimentos com tarefas diferentes. Nem um nem outro autoriza dizer "fotografar faz bem" ou "fotografar faz mal" de forma geral.

O que o caderno de Didion acrescenta

A escritora Joan Didion explica no ensaio On Keeping a Notebook (reunido em Slouching Towards Bethlehem, 1968) que o objetivo do caderno dela nunca foi ter um registro factual do que fez ou pensou. Ela admite que não consegue manter um diário de eventos, e que o que anota é como as coisas pareceram para ela. O ponto dela é outro: manter contato com quem se foi, porque, nas palavras dela, esquecemos cedo demais o que achávamos que nunca esqueceríamos.

Esse ensaio ajuda a separar dois usos do registro. A foto de viagem, a nota de caderno e a anotação de uma mudança no seu negócio guardam coisas diferentes. A foto e o caderno de Didion guardam uma experiência e a sensação dela. No negócio, o que precisa ser guardado é um fato datado, e a lição que sobra dos dois estudos é a mesma: o que não foi registrado na hora fica à mercê da memória, e a memória é seletiva.

O que a história costuma errar

  • "A ciência provou que fotografar estraga a memória." Henkel testou fotos feitas por instrução, medindo reconhecimento e detalhes no dia seguinte, e o efeito não apareceu quando o participante deu zoom em um detalhe.
  • "Diehl desmentiu Henkel." Os estudos medem coisas diferentes, e Diehl et al. dizem que memória do conteúdo não foi o foco deles.
  • "Didion defendia registrar tudo." Ela escreve o contrário: o caderno dela não é um registro factual.
  • "Fotografar sempre aumenta o prazer." O efeito tem limites: é menos provável se a experiência já é muito envolvente ou se a câmera atrapalha, e piora experiências negativas.

O que isso muda no seu negócio

A transposição para negócio é uma hipótese de trabalho. Nenhum dos estudos lidos avaliou diário de mudanças em empresas. O argumento é por analogia: se o cérebro não guarda tudo o que a câmera ou o caderno guardaria, a explicação de uma queda de vendas daqui a dois meses depende de ter anotado, na hora, o que foi mexido.

  1. Crie um diário de mudanças com cinco campos. Data, o que mudou (preço, página, anúncio, e-mail, equipe, prazo), por que mudou, o que você espera que aconteça e quando vai olhar. Cinco linhas, não um relatório.
  2. Anote na hora, não no fim da semana. A lição comum dos dois estudos é que o registro feito durante a experiência é diferente da lembrança reconstruída depois. Teste: compare, em um mês, a sua anotação com o que você lembraria sem ela.
  3. Registre o fato e deixe o sentimento em outra coluna. Didion guarda como as coisas pareceram. No negócio, escreva o fato datado e, se quiser, uma coluna separada para a impressão do momento.
  4. Registre também o que não mudou. Feriado, pico de tráfego pago de um concorrente, instabilidade da plataforma. Uma queda tem causas que não são suas, e sem o registro elas desaparecem.
  5. Releia o diário antes de explicar qualquer queda ou pico. Teste por 90 dias se as explicações que você daria sem o diário mudam quando você o lê. Para decidir se vale continuar, compare as duas listas de causas e veja se o diário trouxe uma causa que você não lembrava.

Se o seu problema é o inverso, olhar o painel demais, veja o artigo sobre o funil de Deming e o risco de reagir a toda oscilação. E para entender melhor por que a memória precisa de reforço, há o guia de repetição espaçada.

Quando NÃO usar essa lição

  • Quando o registro vira tarefa que ninguém mantém. Um diário de dez campos morre em duas semanas. Se não couber em um minuto, reduza.
  • Quando você quer provar causa. Um diário mostra o que aconteceu antes do pico. Ele não prova que a mudança causou o pico, e o seu registro não substitui um teste.
  • Quando o registro tira a atenção do que está acontecendo. Na pesquisa de Diehl et al., o benefício é menos provável quando a câmera atrapalha. Em uma reunião ou atendimento, anote depois, em dois minutos, e não durante.
  • Quando você pretende usar a foto ou a nota como prova de memória. Os estudos não testaram se rever as fotos ou notas depois ajuda a lembrar. Não assuma isso.

Fontes

Para ver como a eBuz organiza o registro de decisões e de contexto, comece pelo Mapa de Contexto. Para continuar a leitura, veja os outros casos do Swipe File.

Perguntas frequentes

Fotografar prejudica a memória?

Em um estudo de Henkel (2014), no museu, quem fotografou objetos inteiros por instrução lembrou menos deles e de seus detalhes no dia seguinte. O efeito não apareceu quando deu zoom em uma parte do objeto. O estudo não testou quem escolhe sozinho o que fotografar, então não vale como regra geral.

Fotografar aumenta o prazer da experiência?

Diehl, Zauberman e Barasch (2016) reuniram nove estudos, três de campo e seis de laboratório, e acharam mais prazer em experiências positivas quando fotografar aumenta o engajamento. O efeito diminui se a experiência já é muito envolvente ou se a câmera atrapalha, e piora experiências negativas.

Os estudos de Henkel e de Diehl se contradizem?

Não necessariamente. Henkel mediu memória de objetos fotografados por instrução. Diehl e colegas mediram prazer e engajamento, e escrevem que a memória do conteúdo ficou fora do escopo deles. Dá para aproveitar mais e, ao mesmo tempo, lembrar menos dos detalhes. Nenhum prova o outro errado.

O que é um diário de mudanças no negócio?

É um registro curto, feito na hora, de cada mudança: data, o que mudou, por que, o que você espera e quando vai olhar. A ideia é uma hipótese a testar: ele ajuda a explicar quedas e picos que a memória sozinha reconstruiria mal. Nenhum estudo lido avaliou isso em empresas.