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Dickens fechou a própria revista e o leitor foi atrás: o ativo era o autor

Dickens rompeu com os sócios, lançou uma revista nova e encerrou a antiga em quatro semanas. O caso é usado para falar de marca pessoal. O que ele sustenta, e o que fica em aberto.

JonathanJonathan
9 min de leitura1.767 palavras
Capa do artigo sobre Dickens e o Leitor, do Swipe File da eBuz

Resposta curta: em 1859, Charles Dickens rompeu com os sócios da revista Household Words, lançou a All the Year Round em 30 de abril e encerrou a antiga em 28 de maio, quatro semanas depois. Ele levou o subeditor e, segundo o próprio Dickens, a equipe de escritores, e abriu a nova com um romance seu em capítulos semanais. A lição do caso é que a confiança do leitor estava em quem escolhia o que publicar, e não no título impresso na capa. A lição vale como hipótese, porque as cifras de venda vêm de fontes secundárias e os sócios também lançaram uma revista que durou 21 anos.

O caso: duas revistas, quatro semanas de sobreposição

A Household Words nasceu em março de 1850, um semanário de dois pence, com Dickens como editor. Era dele em metade, segundo a divisão descrita na história dos impressores Bradbury e Evans. Bradbury e Evans ficavam com um quarto e cuidavam do lado comercial, e o subeditor William Henry Wills e o amigo John Forster tinham um oitavo cada. Dickens mandava no conteúdo. Os sócios mandavam na gráfica, na distribuição e no caixa.

O rompimento veio de uma briga pessoal. Dickens quis publicar no Punch, que a mesma firma imprimia, uma declaração sobre a separação do casamento. Bradbury e Evans recusaram. Segundo a história dos impressores, Dickens reteve o novo romance e fundou a All the Year Round. O verbete da Wikipédia registra o lançamento em 30 de abril de 1859, um sábado, com o primeiro capítulo de A Tale of Two Cities na abertura. Segundo a Victorian Web, a posição do romance na primeira página foi pensada para dar impulso às vendas iniciais.

Quatro semanas depois, em 28 de maio, saiu o último número da Household Words. O texto desse número, transcrito no Project Gutenberg, diz que a publicação vai se fundir à nova semanal e que o título antigo passará a fazer parte da página de rosto da nova. O manifesto de Dickens, reproduzido ali, tem uma frase que resume a estratégia: ao se transferir para a nova revista, ele diz levar consigo a equipe de escritores com quem trabalhou e toda a cooperação literária e comercial que fizesse o trabalho um prazer.

Repare no desenho. A nova abriu antes da velha fechar. O leitor da antiga tinha, nas bancas, a nova com o mesmo editor, e o último número da velha dizia onde encontrá-lo. Não houve um vazio longo para outra revista ocupar.

O que os números dizem, e de quem eles vêm

Aqui é preciso cuidado, porque os números são dispersos e uma das cifras é do interessado:

DadoO que a fonte afirmaFonte e ressalva
Venda semanal normal da Household Wordscerca de 38.500 exemplaresVictorian Web, uma única fonte, sem data precisa
Primeiro número da All the Year Roundcerca de 120.000 (Dickens Journals Online) ou 125.000 (Victorian Web)fontes secundárias que divergem entre si
Venda depois de estabilizadacerca de 100.000 por númeroWills falou em "steady current sale of 100,000", segundo o Dickens Journals Online
Comparação feita por Dickensa circulação da nova "trebles" a da velha, cinco semanas depoisafirmação do próprio Dickens no anúncio; não é medição independente

Os números das fontes secundárias são compatíveis com o "triplicou" do anúncio, mas nenhum deles é uma auditoria. O que se pode dizer com segurança: a nova revista vendeu muito mais do que a velha vendia, segundo todas as fontes que trazem cifra, e as que não trazem (as duas páginas da Wikipédia) não contradizem isso.

O mecanismo: sem saber o que é bom, o leitor segue sinais

O caso de Dickens é uma história, e história não prova mecanismo. O que ajuda a pensar nele é o experimento de Matthew Salganik, Peter Sheridan Dodds e Duncan Watts, publicado na Science em 2006. Eles montaram um "mercado de música" artificial com 14.341 participantes, que ouviam e podiam baixar músicas de bandas desconhecidas. Um grupo escolhia só pelo nome da banda e da música. Outro via também quantas vezes cada música já tinha sido baixada, e foi dividido em oito "mundos" paralelos que evoluíam sem se tocar.

O resultado, nas palavras do resumo do artigo: quanto mais forte a influência social, maior a desigualdade e maior a imprevisibilidade do sucesso. As melhores músicas raramente iam mal e as piores raramente iam bem, mas qualquer resultado entre os dois extremos era possível.

O estudo não fala de autor, de marca pessoal nem de revista. Ele mede o efeito de um sinal social (contagem de downloads) sobre itens que ninguém conhecia. A ponte para Dickens é uma inferência minha, e deve ser lida assim: quando o leitor não tem como avaliar de antemão o que vai ler, ele se apoia em algum sinal. Para o público vitoriano, um sinal forte era o nome na capa, o editor que já tinha entregado nove anos de semanas. A revista antiga tinha o título, mas o sinal estava na pessoa.

Há um indício a favor dessa leitura no próprio caso. O jornalista John Hollingshead, colaborador da casa, escreveu que a nova revista "não era o mesmo jornal, embora tivessem o mesmo chefe", segundo o Dickens Journals Online. A revista era outra, e o leitor foi assim mesmo. Isso não prova que o leitor comprou o nome: Dickens também mudou o produto, com romances de nomes conhecidos na abertura em vez das reportagens de antes.

O que a história costuma errar

  • "Os sócios ficaram sem leitor." Não ficaram. Bradbury e Evans lançaram a Once a Week em 2 de julho de 1859, com Samuel Lucas como editor, e a revista durou até 1880. A Wikipédia diz que teve vendas fortes, mas provavelmente com preço baixo demais. A história dos impressores, no Spartacus, diz que a circulação nunca igualou a reputação crítica e que a revista pesou no caixa da firma. Eles não repetiram o fenômeno de Dickens, mas "sem leitor" é exagero.
  • "A cifra de venda é desconhecida." Existem cifras, de fontes secundárias, e uma delas é do próprio Dickens. O erro é tratá-las como medida limpa.
  • "Foi só o nome do autor." Não foi. Dickens abriu a nova com um romance seu, A Tale of Two Cities, e a Victorian Web registra uma campanha de lançamento pelos pontos de venda de W. H. Smith. O nome trabalhou junto com produto e distribuição.
  • "A briga na Justiça terminou de um jeito só." As fontes divergem. Uma diz que Dickens venceu na Chancery e recuperou o nome Household Words. Outra diz que Bradbury e Evans obtiveram uma injunção, alegando contrato, e que Dickens não cedeu. Eu não li peças judiciais, então não afirmo qual versão é a certa. O ponto comum às duas é que ele publicou a nova revista na data marcada.

O que isso muda no seu negócio

Nada abaixo é resultado de estudo. São hipóteses para você testar, tiradas de um caso e de um experimento que não são da sua área.

  1. Descubra onde mora a confiança hoje. Pergunte a dez dos seus últimos clientes por que compraram: foi o nome da marca, o seu nome, a pessoa que atendeu? A resposta diz se o seu ativo é a assinatura ou o título.
  2. Tenha um canal que você leve consigo. A lista de emails, o grupo de WhatsApp com consentimento e a base de clientes saem com você. O alcance numa plataforma emprestada fica na plataforma. É a ideia do artigo sobre mil fãs verdadeiros: poucos leitores que respondem a você valem mais do que muitos que respondem ao algoritmo.
  3. Se for migrar, faça a sobreposição. Dickens manteve as duas revistas por quatro semanas e avisou os leitores do endereço novo no último número da velha. Exemplo ilustrativo, sem dado real: se o seu público está num perfil, anuncie o novo canal no perfil por algumas semanas antes de parar de postar lá.
  4. Dê motivo para ir, não só aviso. A nova revista abriu com um romance novo do autor. Migração sem uma razão nova ("o que você ganha do outro lado") tende a ser só aviso, e aviso perde para o hábito.
  5. Meça a migração. Registre quantas pessoas da base antiga chegam à nova, em quanto tempo. Sem essa conta, você não sabe se levou o leitor ou só o seguidor.

Para ligar isso à construção de uma lista que sobreviva à plataforma, leia o artigo sobre lista, oferta e copy.

Quando NÃO usar essa lição

  • Quando o seu ativo é o produto ou a marca, e não você. Se o cliente compra pela categoria ou pelo preço (um serviço que ele nem sabe quem presta), o nome da pessoa não carrega a venda. O caso de Dickens vale onde a confiança é no autor.
  • Quando você é um autor menos conhecido. Dickens chegou a 1859 com nove anos de revista semanal e romances já publicados. O que funcionou para ele pode não funcionar para quem ainda não tem um nome.
  • Quando sair deixa a casa sem substituto. Dickens teve capital, sócio (Wills) e distribuição para abrir a nova. Largar o canal antigo sem ter o novo pronto é o oposto do que ele fez.
  • Quando você usa o "triplicou" como promessa. É a afirmação de um editor sobre a própria revista, cinco semanas depois do lançamento.

Fontes

Para ver como a eBuz organiza oferta e canal próprio, comece pelo Mapa de Contexto. Para continuar a leitura, veja os outros casos do Swipe File e o guia de copywriting de resposta direta.

Perguntas frequentes

Por que Dickens fechou a Household Words?

Em 1859 os sócios Bradbury e Evans se recusaram a publicar no Punch uma declaração de Dickens sobre a separação do casamento. Ele rompeu, lançou a All the Year Round em 30 de abril e encerrou a Household Words em 28 de maio, dizendo que a antiga se fundiria à nova.

A All the Year Round vendeu mais que a Household Words?

Segundo as fontes lidas, sim: a antiga vendia cerca de 38.500 exemplares por semana, e a nova cerca de 120.000 a 125.000 no primeiro número, estabilizando perto de 100.000. São cifras de fontes secundárias, e o 'triplicou' é afirmação do próprio Dickens.

Os sócios de Dickens ficaram sem leitores?

Não. Bradbury e Evans lançaram a Once a Week em julho de 1859, que durou até 1880 e teve boas vendas no início. Segundo a história dos impressores, porém, a circulação nunca igualou a reputação crítica e a revista pesou no caixa da firma.

O experimento de Salganik prova que o leitor segue o autor?

Não. O estudo de 2006, com 14.341 participantes, mediu o efeito da contagem de downloads sobre músicas desconhecidas. Mostrou que mais influência social gera mais desigualdade e imprevisibilidade. A ligação com o nome do autor é uma inferência, não um resultado do estudo.