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De Groot e o xadrez: o mestre calculou o mesmo e escolheu melhor o que calcular

No estudo de de Groot, grandes-mestres de xadrez não examinaram mais lances nem foram mais fundo que jogadores fortes: escolheram melhor o que olhar. A réplica de 2004 complica o achado, e o artigo mostra o que sobra da lição para quem estuda concorrentes.

JonathanJonathan
7 min de leitura1.497 palavras
Capa do artigo sobre De Groot e o Xadrez, do Swipe File da eBuz

Resposta curta: o psicólogo holandês Adriaan de Groot pediu a jogadores de xadrez que pensassem em voz alta diante de uma posição desconhecida. Na comparação entre cinco grandes-mestres e cinco jogadores fortes, o número de lances examinados e a profundidade do cálculo ficaram muito próximos. O que separava os dois grupos era a qualidade do lance escolhido. Uma réplica de 2004 complica o quadro, mas a ideia de fundo se mantém: perícia está mais em escolher o que olhar do que em olhar mais.

O caso: pensar em voz alta, de 1938 a 1943

De Groot era psicólogo e jogador de xadrez ativo. Entre 1938 e 1943 (a primeira série durante o torneio AVRO, nos Países Baixos, e a bordo dos navios a caminho do Torneio das Nações de Buenos Aires, em 1939; a segunda, em 1943, com jogadores holandeses), ele colocou jogadores de vários níveis diante de uma posição tirada de uma partida real, que eles não conheciam, e pediu que dissessem em voz alta tudo o que passava pela cabeça até escolherem um lance. O resultado virou a tese Het denken van den schaker, de 1946, traduzida para o inglês em 1965 como Thought and Choice in Chess.

Entre os sujeitos havia jogadores de classe fraca, jogadores fortes, mestres, grandes-mestres e dois campeões mundiais. As transcrições de Alekhine, Euwe, Keres, Fine, Flohr e Tartakower estão no apêndice do livro. No prefácio, o autor conta o que esperava: que os mestres fossem melhor, o que aconteceu, e que calculassem mais fundo, o que, nas palavras dele, não aconteceu.

O que os números mostram

A comparação mais direta do livro usa uma única posição (chamada "posição A") e dois grupos de cinco: grandes-mestres e "experts", jogadores fortes de uma classe abaixo. Segundo as tabelas 11 e 12 do livro, as médias foram estas:

Medida5 grandes-mestres5 experts
Tempo até decidir9,6 min12,8 min
Primeiros lances diferentes considerados4,23,4
Profundidade máxima de cálculo (em meios-lances)6,86,6

O texto de de Groot é direto: o que mais chama atenção é a concordância entre as médias dos dois grupos, e a profundidade do cálculo "não pode ser a principal característica" que distingue o grande-mestre do expert. Nas medidas de estrutura do pensamento, a única diferença relevante era que os grandes-mestres decidiam um pouco mais rápido e mencionavam mais lances por minuto.

Já na qualidade da decisão a distância era enorme. Segundo o autor, quatro dos cinco grandes-mestres quase certamente teriam vencido a partida, e os cinco experts, sem exceção, deixaram a oportunidade escapar. A frase que resume o achado: o mestre não calcula necessariamente mais fundo, mas as variantes que calcula são muito mais pertinentes.

Sobre o número "quatro ou cinco" que circula nas versões populares: no livro, ele aparece como média de lances diferentes considerados por todos os sujeitos juntos, nos 46 protocolos da série principal. Não é uma comparação entre mestres e jogadores de clube.

O mecanismo: reconhecer antes de calcular

De Groot explicou a diferença pela experiência acumulada. O mestre começa o pensamento operacional num ponto bem mais avançado: reconhece o tipo de posição, sabe qual método se aplica e avalia a situação já nas primeiras linhas do protocolo, enquanto os jogadores mais fracos seguem incertos sobre a própria avaliação. Ele chama isso de "ligações de experiência" acumuladas ao longo dos anos.

O trabalho posterior de Herbert Simon e William Chase deu nome a esse repertório: blocos (chunks) de padrões. O experimento de memória deles, em que mestres reconstroem posições reais vistas por poucos segundos e não superam fracos com peças ao acaso, está detalhado no artigo sobre Shannon e o xadrez. Philip Ross, na Scientific American, relata a estimativa de Simon de que um grande-mestre tem acesso a algo entre 50 mil e 100 mil desses blocos. Segundo o professor Ben Newell, da UNSW, Simon definiu a intuição como "nada mais, nada menos que reconhecimento" (o texto de Newell não traz a referência original de Simon).

Uma leitura possível para quem não joga xadrez, e que é interpretação deste artigo, não do estudo: o mestre não guarda mais posições, ele as comprime. Em vez de mil lembranças soltas, carrega algumas centenas de padrões que cobrem as mil.

O que a história costuma errar

  • "Mestres calculam menos." Não é o que os dados dizem. Nas medidas de de Groot, calcularam parecido. E a réplica de 2004 (abaixo) achou que jogadores fortes buscam mais e mais fundo em posições complexas.
  • "Foi um estudo com mestres contra amadores de clube." A comparação central foi entre grandes-mestres e experts, cinco contra cinco, numa posição só.
  • "É uma lei da perícia." O próprio autor lembra que as sessões eram artificiais: a posição era estranha, a primeira fase do pensamento era em boa parte efeito do experimento, e os grandes-mestres, segundo ele, tinham pouca motivação e não se concentravam por mais que 5 a 10 minutos. Alekhine, ao fim do seu protocolo, deu a entender que numa partida séria se esforçaria muito mais.
  • Retrato de jogadores de hoje. Os protocolos são de 1938 a 1943. Qualquer relato do que se passa na cabeça de um jogador atual não vem desse estudo.

A réplica que complica a história

Em 2004, Guillermo Campitelli e Fernand Gobet publicaram no ICGA Journal o artigo "Adaptive expert decision making: Skilled chess players search more and deeper". O resumo afirma que a pesquisa anterior subestimou muito o potencial de busca dos especialistas, e que os jogadores adaptam o método ao que a tarefa exige. Ou seja: em posições que exigem cálculo, os mais fortes calculam mais e mais fundo.

Isso não derruba a lição, mas a afina. Reconhecimento de padrões é o que torna a busca barata e bem dirigida, e não elimina o cálculo quando a posição exige. O que a escolha dos lances faz é dizer onde gastar o cálculo.

O que isso muda no seu negócio

A extrapolação abaixo é do artigo, não do estudo. Trata-se de hipóteses a testar.

  1. Troque "ler mais" por "extrair uma frase por peça". Para cada newsletter, anúncio ou página de concorrente que você abre, escreva uma frase sobre a estrutura (o que a peça faz e em que ordem), sem nicho nem data. Se a frase só funciona para aquele assunto, ainda é resumo, não padrão.
  2. Limite os candidatos. Na hora de decidir um título, uma oferta ou um preço, separe de três a cinco opções e descarte o resto. O grupo de de Groot considerou poucos lances, e isso não os impediu de escolher bem.
  3. Agrupe as frases a cada vinte peças. Junte as que se repetem. O que sobra são os seus blocos: poucos, nomeados, reutilizáveis. É o que a sua leitura passa a deixar para trás.
  4. Meça a escolha, não o volume. Em vez de contar quantas peças você estudou, registre quantas decisões suas usaram um padrão da lista e o que aconteceu depois. É a mesma lógica de medir o que importa todo dia.
  5. Reserve cálculo para o que o padrão não resolve. Para decisões novas ou caras, volte à análise detalhada. A réplica de 2004 sugere que os fortes fazem as duas coisas.

Quem trava no rascunho depois de assinar muitas newsletters costuma ter o problema inverso ao que parece: sobra material e falta compressão. Para ligar isso ao esforço mental de quem aprende, veja também carga cognitiva e por que especialistas não conseguem explicar o que sabem.

Quando NÃO usar essa lição

  • Quando você ainda não tem repertório. Comprimir exige ter visto bastante. No estudo, a vantagem vinha de anos de prática, e ela não se copia com uma frase.
  • Em decisões que dependem de cálculo. Preço, estoque e fluxo de caixa pedem conta, não intuição. A réplica de 2004 mostra que a profundidade conta quando a posição é complexa.
  • Quando o padrão vira ritual. Se a sua lista de blocos nunca muda, você pode estar reconhecendo o passado e perdendo o que é novo. Reveja a lista com dados.
  • Se o objetivo é entender um concorrente a fundo. Uma frase por peça serve para ganhar repertório, não para analisar uma estratégia inteira.

Fontes

Para ver como a eBuz organiza decisões a partir de padrões, comece pelo Mapa de Contexto. Para continuar a leitura, veja os outros casos do Swipe File.

Perguntas frequentes

O que de Groot descobriu sobre como mestres de xadrez pensam?

Em estudo feito de 1938 a 1943, com pensar em voz alta, de Groot comparou cinco grandes-mestres e cinco experts numa mesma posição. Lances examinados e profundidade do cálculo ficaram muito parecidos. A diferença estava na qualidade do lance escolhido, o que ele atribuiu à experiência e ao reconhecimento de padrões.

Mestres de xadrez calculam menos que jogadores fracos?

Não é isso que o estudo diz. Na posição analisada, grandes-mestres e experts calcularam de forma parecida, com 6,8 e 6,6 meios-lances de profundidade máxima média. Uma réplica de 2004 achou que jogadores fortes buscam mais e mais fundo em posições complexas. O que muda é a seleção dos lances examinados.

Quantos lances um mestre considera antes de jogar?

No livro de de Groot, a média de lances diferentes considerados por todos os sujeitos juntos ficou em no máximo quatro a cinco por protocolo. Não é uma comparação entre mestres e jogadores de clube. Na posição A, os grandes-mestres consideraram em média 4,2 primeiros lances e os experts 3,4.

Como aplicar a lição de de Groot a conteúdo e negócios?

É extrapolação, não resultado do estudo. Uma hipótese a testar: para cada peça de concorrente, escrever uma frase sobre a estrutura, sem nicho nem data, e agrupar as frases a cada vinte peças. O objetivo é comprimir repertório, não acumular leitura. Meça se suas decisões passam a usar esses padrões.