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A perda pesa mais que o ganho? A ciência trocou o "dobro" por "depende"

A ideia de que a perda pesa o dobro do ganho é uma estimativa de 1992, e as medições recentes variam de 1,3 a 2. O que a pesquisa diz sobre aversão à perda e como testar no seu negócio.

JonathanJonathan
7 min de leitura1.391 palavras
Capa do artigo sobre Aversão à Perda, do Swipe File da eBuz

Resposta curta: aversão à perda é a tendência de dar mais peso a perder do que a ganhar o equivalente. A ideia vem do artigo de Daniel Kahneman e Amos Tversky de 1979, mas o número que todo mundo repete, "a perda pesa o dobro", vem de uma estimativa de 1992 (2,25). Uma meta-análise de 2024 com 607 estimativas achou média de cerca de 1,96, outro trabalho de 2024 achou 1,31, e há pesquisadores que contestam o efeito em média. Quanto à venda, nenhuma fonte que li testa se "mostrar o que o cliente perde" vende mais do que "mostrar o que ele ganha". Isso é uma hipótese para testar no seu negócio, não uma regra.

O que Kahneman e Tversky mostraram em 1979

O artigo Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk saiu na revista Econometrica, em 1979. Ele critica a teoria da utilidade esperada como descrição de como as pessoas decidem e propõe a teoria da perspectiva. Pelo resumo oficial, três pontos importam aqui:

  • Efeito de certeza: as pessoas dão peso menor a resultados apenas prováveis do que a resultados certos, o que gera aversão a risco quando o ganho é certo e busca de risco quando a perda é certa.
  • Efeito de isolamento: as pessoas ignoram o que é comum às opções, e isso produz preferências inconsistentes quando a mesma escolha é apresentada de formas diferentes.
  • Valor mais íngreme para perdas: o resumo descreve a curva de valor como côncava para ganhos, convexa para perdas e mais íngreme para perdas. É a aversão à perda em forma qualitativa: perder dói mais do que ganhar o mesmo valor alegra.

O resumo não traz número nenhum. Não consegui abrir o texto legível do artigo, então o que afirmo sobre 1979 vale para o resumo oficial.

De onde vem o "dobro"

A razão numérica aparece na versão de 1992, Advances in Prospect Theory: Cumulative Representation of Uncertainty, de Tversky e Kahneman, no Journal of Risk and Uncertainty. Uma página de referência de um pesquisador de decisão lista o coeficiente de aversão à perda como 2,25 "em T&K", com essa referência. Ou seja, o "pesa mais que o dobro" é uma estimativa de 1992, e não uma constante da natureza nem algo do artigo de 1979.

O que mediram depois

TrabalhoO que encontrou
Brown, Imai, Vieider e Camerer (2024), Journal of Economic Literature607 estimativas de 150 artigos, média de 1,955, com intervalo de 1,82 a 2,10. Poucas características dos estudos explicam as diferenças
Walasek, Mullett e Stewart (2024)Média de 1,31, com intervalo de 1,10 a 1,53, e aviso de que os dados são de baixa qualidade
Mrkva e colegas (2020), cinco amostras, 17.720 pessoasTodos os níveis de conhecimento e experiência mostraram aversão à perda, mas mais conhecimento reduz o efeito e os mais velhos têm mais aversão
Gal e Rucker (2018), Journal of Consumer PsychologyConcluem que a evidência não mostra que perdas pesam mais que ganhos, em média. Uma resposta de Higgins e Liberman concorda que a aversão à perda não é tão firme quanto se supõe, mas defende a ideia de pontos de referência

Os próprios pesquisadores divergem se isso é falácia ou efeito moderado. A leitura mais segura é que existe uma tendência, que ela é menor do que 2,25 e que muda com o contexto, a pessoa e o valor em jogo.

E na venda?

O problema aparece quando a teoria vira regra de copy: "mostre o que o cliente perde, não o que ganha". A teoria trata de escolhas entre apostas em laboratório, não de decisões de compra. As fontes que li sobre mensagens persuasivas são de outras áreas:

  • Uma meta-análise de mensagens de saúde sobre câncer de pele (33 estudos, 4.168 participantes) não achou diferença significativa entre mensagens de ganho e de perda, e os autores aconselham quem escreve mensagens a não perder tempo se preocupando com isso.
  • Nenhuma das fontes que li testa o enquadramento de perda contra o de ganho em copy de venda, email ou página de oferta.

Ou seja, "nomear o custo de continuar como está" pode funcionar no seu público, e nada que li garante que funcione. A decisão é sua, e o teste é a prova.

Como testar no seu negócio

  1. Escreva duas versões da mesma mensagem. Uma descreve o que o cliente ganha. A outra descreve o que ele já perde hoje. Mude só isso: mesmo canal, mesmo público, mesmo horário.
  2. Defina antes o critério de sucesso. Respostas, cliques ou propostas pedidas, o que fizer sentido, escolhido antes de ver o resultado.
  3. Use perdas verdadeiras. Se a perda que você descreve for inventada ou exagerada, o cliente percebe e a sua credibilidade cai. Use um custo real do cliente, que ele reconheça.
  4. Repita antes de concluir. Um teste com poucas pessoas diz pouco. Se a diferença for pequena, trate como empate.
  5. Registre o resultado. Ele vale só para o seu público e a sua oferta, e é o seu dado, melhor do que qualquer média de laboratório.

Para montar o teste dentro de uma oferta, os dez testes da oferta e o artigo sobre níveis de consciência ajudam a decidir para quem a mensagem vai.

Quando NÃO usar essa lição

  • Quando o valor em jogo é pequeno. A literatura citada em resumos de terceiros aponta que o efeito costuma não aparecer com apostas pequenas, na faixa de até cerca de US$ 100. É uma leitura de segunda mão, e vale checar na fonte antes de basear uma decisão grande nela.
  • Quando o seu público tem experiência no assunto. Mrkva e colegas mostram que mais conhecimento reduz a aversão, embora não a elimine.
  • Quando a perda é inventada. Dramatizar um prejuízo que o cliente não sente transforma a mensagem em pressão, e pressão sem lastro custa confiança.
  • Quando você usa o "dobro" como número. Escrever "a perda pesa o dobro" numa página de vendas repete um número que as medições recentes não sustentam.

O que a história costuma errar

  • "A perda pesa exatamente o dobro." O 2,25 é uma estimativa de 1992. Uma meta-análise de 2024 achou cerca de 1,96, e outro trabalho achou 1,31.
  • "O 2,25 está no artigo de 1979." Pelo resumo oficial, o artigo de 1979 fala em curva mais íngreme para perdas, sem número. O 2,25 aparece associado ao artigo de 1992.
  • "Vale para qualquer decisão e qualquer pessoa." Valor pequeno, conhecimento do assunto e idade mudam o tamanho do efeito.
  • "Mensagem de perda sempre convence mais." Na meta-análise de câncer de pele não houve diferença, e nenhuma fonte lida testou isso em copy de venda.
  • "O salto para o risco nas perdas é aversão à perda." Em resenhas da crítica, esse comportamento é descrito como efeito de reflexão, que é outra coisa.

Fontes

Para ver como a eBuz organiza oferta, mensagem e teste, comece pelo Mapa de Contexto. Para continuar a leitura, veja os outros casos do Swipe File e o guia de copywriting de resposta direta.

Perguntas frequentes

O que é aversão à perda?

É a tendência de dar mais peso a perder algo do que a ganhar o equivalente. A ideia vem da teoria da perspectiva, de Kahneman e Tversky (1979), em que a curva de valor é mais íngreme para perdas do que para ganhos. O resumo oficial do artigo descreve isso de forma qualitativa, sem número.

A perda pesa duas vezes mais que o ganho?

Não existe um valor fixo. O coeficiente de 2,25 vem de uma estimativa de Tversky e Kahneman de 1992. Uma meta-análise de 2024 (607 estimativas de 150 artigos) achou média de cerca de 1,96, outro trabalho de 2024 achou 1,31, e há autores que contestam que o efeito exista em média.

Mensagem de perda vende mais que mensagem de ganho?

Não há prova disso em copy de venda nas fontes consultadas. Em uma meta-análise de mensagens de saúde sobre câncer de pele (33 estudos, 4.168 participantes), não houve diferença significativa entre enquadrar a mensagem como ganho ou como perda. Em venda, o caminho é testar no seu público.

Como testar no meu negócio se a mensagem de perda funciona?

Escreva duas versões da mesma mensagem, uma sobre o que o cliente ganha e outra sobre o que ele já perde hoje, mudando só isso. Defina o critério de sucesso antes, use uma perda real e repita antes de concluir. Se a diferença for pequena, trate como empate.