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Trollope e a gaveta cheia: 250 palavras a cada quinze minutos e três romances de reserva

Na autobiografia, Trollope descreve a rotina das 5h30, as 250 palavras por quarto de hora e a gaveta com romances prontos. O que a fonte diz, o que a história erra e como aplicar a ideia de estoque.

JonathanJonathan
7 min de leitura1.431 palavras
Capa do artigo sobre Trollope e a Gaveta, do Swipe File da eBuz

Resposta curta: Anthony Trollope, romancista inglês do século XIX, escreveu na própria autobiografia que sentava à mesa às 5h30, escrevia com o relógio na frente e cobrava de si um ritmo de 250 palavras por quarto de hora. O que sustentava a regularidade, segundo ele, não era inspiração: eram páginas sempre adiantadas na gaveta. Em 1876 ele contava três romances prontos e inéditos, um deles parado havia seis anos.

O caso: cinco e meia, relógio na mesa

Em 1875 e 1876, Trollope escreveu um relato da própria vida e o deixou guardado, com uma carta ao filho mais velho, Henry, datada de 30 de abril de 1876. A instrução era publicar só depois da morte dele. Trollope morreu em 6 de dezembro de 1882, e An Autobiography saiu em 1883, com um prefácio assinado pelo filho em setembro daquele ano.

O trecho que interessa está no capítulo sobre a saída do correio. Trollope conta que, nos doze anos em que morou em Waltham Cross (de 1859 a 1871), fez o trabalho de inspetor do correio, caçou pelo menos duas vezes por semana, frequentou o clube Garrick, passou ao menos seis semanas por ano fora da Inglaterra e, mesmo assim, escreveu uma montanha de livros. Ele atribui isso a uma coisa só, as madrugadas.

  • 5h30 na mesa. Um velho cavalariço, pago com 5 libras por ano a mais para essa função, trazia o café e nunca se atrasou. Trollope diz dever mais a ele do que a qualquer outra pessoa.
  • Três horas por dia. Para ele, é o que um escritor deve produzir. Terminava antes de se vestir para o café da manhã.
  • Relógio na mesa. O ritmo cobrado era de 250 palavras por quarto de hora, e diz que elas vinham "tão regulares quanto o relógio andava". Admite que, de uns tempos para cá, ficou "um pouco leniente" consigo.
  • Meia hora relendo. Começava lendo o que escrevera no dia anterior, para pegar o tom.
  • Resultado. Mais de dez páginas de um volume de romance por dia. Mantido por dez meses, esse ritmo daria três romances de três volumes por ano, mas ele mesmo diz que nunca escreveu três num ano.

Uma conta minha, para dar escala: mil palavras por hora, durante duas horas e meia de escrita depois da releitura, dá perto de 2.500 palavras por dia. É uma estimativa a partir do que ele conta, não um número que ele publique.

A gaveta, nas palavras dele

Aqui está a parte que quase ninguém cita. Trollope diz que, seguindo esse plano ao longo dos anos, passou a ter sempre à mão "um ou dois, ou mesmo três" romances inéditos na mesa. E acrescenta: se morresse naquele momento, havia três prontos, além de The Prime Minister, cuja primeira metade apenas tinha saído. Um deles estava terminado havia seis anos e nunca vira a luz.

Depois vem a frase que sustenta o artigo inteiro: ele nunca teve ansiedade com o "copy", porque as páginas necessárias, "muito à frente", quase sempre estavam na gaveta ao lado. E ele credita isso também a um diário, com datas e colunas riscadas, em que registrava o que produzia, uma cobrança diária e semanal que ele via quase como um chefe.

Note o desenho: não é um homem que acorda inspirado. É um sistema com três peças. O horário fixo (um groom pago para não falhar), a meta pequena e medida (250 palavras por quarto de hora) e o estoque (romances terminados, esperando a vez).

O mecanismo: por que o estoque funciona

Existe uma ideia da teoria das filas que ajuda a enxergar o efeito, e ela é uma analogia minha: Trollope nunca falou em filas. Kingman publicou em 1961 o artigo "The single server queue in heavy traffic", e a fórmula que leva o nome dele (segundo a página da Wikipedia sobre ela, que li, mas sem ler o artigo de 1961) mostra que o tempo médio de espera numa fila com um atendente cresce com o termo ρ/(1−ρ), em que ρ é a ocupação do atendente. A página diz que a aproximação é muito precisa justamente perto da saturação.

Um cálculo simples, exemplo ilustrativo: com ocupação de 50%, o termo vale 1. Com 90%, vale 9. Com 95%, vale 19. Ou seja, quem está sempre cheio de trabalho não tem folga para o imprevisto, e qualquer atraso vira fila.

Traduzindo para publicar com regularidade: se cada dia você escreve exatamente o que vai ao ar naquele dia, a sua ocupação é de quase 100% e qualquer dia ruim (gripe, filho doente, trabalho que estourou) vira buraco no calendário. Quando você escreve mais do que publica, a folga aparece. A gaveta é a folga. É a diferença entre uma agenda sem reserva e uma com reserva.

O que a história costuma errar

  • "Ele morreu com um romance terminado e inédito, e outro." Só um é descrito assim. O filho escreve que ele deixou em manuscrito um romance completo, An Old Man's Love, que a editora Blackwood publicaria em 1884. Mr. Scarborough's Family, listado como de 1883, já estava em publicação em folhetim, na revista All the Year Round, desde 17 de maio de 1882, ou seja, com ele vivo. E havia ainda The Landleaguers, com quatro quintos escritos.
  • "As 250 palavras eram a média da vida inteira." É o que ele descreve como prática em certa fase, e ele mesmo diz que depois ficou um pouco mais brando.
  • "Ele escrevia de madrugada antes do correio." A fonte diz que ele terminava o trabalho literário antes de se vestir para o café da manhã. O emprego no correio era o trabalho do dia, e os doze anos de que ele fala (1859 a 1871) são os de Waltham Cross.
  • "Era disciplina pura." Ele mesmo dá crédito ao groom pago, ao relógio e ao diário. É disciplina terceirizada para o sistema.
  • "A gaveta cheia era uma proeza que só se viu depois da morte." Ele já descrevia a gaveta em 1876, em vida.

O que isso muda no seu negócio

Nada abaixo é promessa de resultado. São hipóteses para você testar por algumas semanas.

  1. Defina o estoque mínimo. Escolha um número de peças prontas na gaveta (três edições, por exemplo) abaixo do qual você não publica a seguinte antes de repor.
  2. Marque o relógio, não a inspiração. Escolha um horário fixo e uma meta pequena e medida. Trollope usava palavras por quarto de hora. Você pode usar parágrafos por bloco.
  3. Terceirize a cobrança. O groom dele era uma pessoa que não aceitava desculpa. Um sócio, uma colega ou um combinado com data pública faz o mesmo papel.
  4. Releia antes de recomeçar. A meia hora dele relendo o dia anterior serve para manter a voz. Tente dez minutos e veja se o texto fica menos desigual.
  5. Use o estoque para descartar. Com peças de sobra, um rascunho ruim deixa de ser emergência: você joga fora e puxa a próxima. Essa parte é uma aplicação minha, não algo que Trollope afirme.

Para um caso vizinho, sobre medir uma rotina todo dia, veja o funil de Deming. Se o seu estoque vai virar livro, a Máquina de Livros trata disso.

Quando NÃO usar essa lição

  • Quando o conteúdo depende do fato do dia. Notícia e comentário de atualidade envelhecem na gaveta.
  • Quando o estoque vira desculpa para não publicar. Trollope guardou um romance por seis anos. Peça parada sem data de saída é custo, não reserva.
  • Quando a analogia com filas é tomada por lei. A fórmula de Kingman vale para um modelo de fila com um atendente. Um criador de conteúdo não é uma fila, e os números acima são ilustração.
  • Quando o ritmo dele vira régua para você. São 250 palavras de um profissional que escreveu dezenas de romances. Calibre a sua meta pela sua própria medição.
  • Quando a rotina de 5h30 não cabe na sua vida. O que importa é o horário fixo, não a hora do dia.

Fontes

Veja também os outros casos do Swipe File e o guia de copywriting de resposta direta.

Perguntas frequentes

Quantas palavras Trollope escrevia por dia?

Na autobiografia, ele diz exigir de si 250 palavras a cada quinze minutos, durante três horas por dia, com meia hora inicial relendo o dia anterior. Ele relata mais de dez páginas de romance por dia nessa fase e admite que depois ficou um pouco mais brando. A conta de 2.500 palavras por dia é estimativa, não dado dele.

Trollope deixou romances inéditos na gaveta?

Em 1876 ele escreveu que, se morresse, havia três romances prontos e inéditos além de The Prime Minister, um deles terminado havia seis anos. Na morte, em dezembro de 1882, o filho descreve An Old Man's Love como romance completo em manuscrito, a sair em 1884.

O que a teoria das filas tem a ver com constância?

É uma analogia, não algo que Trollope disse. Na fórmula de Kingman, a espera cresce com ρ/(1−ρ), então perto da ocupação máxima qualquer imprevisto vira fila. Escrever mais do que se publica cria folga. A aplicação à produção de conteúdo é hipótese a testar.

Preciso acordar às cinco e meia para aplicar o método?

Não. O que a fonte sustenta é a combinação de horário fixo, meta pequena medida e estoque pronto. Trollope pagava um cavalariço para chamá-lo às 5h30, mas a hora é detalhe de vida dele. Escolha um horário que você consiga repetir e cobre-se com alguém ou algo externo.