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O carrossel que bombeava água: meta de 4.000 bombas e a pergunta que faltou

Em 2006, um carrossel que bombeava água ganhou uma aliança anunciada de US$ 60 milhões e uma empresa com meta de 4.000 bombas. A avaliação da Unicef de 2007 mostra o que o campo disse e por que bombas instaladas não medem água disponível.

JonathanJonathan
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Capa do artigo sobre Carrossel de Água, do Swipe File da eBuz

Resposta curta: a PlayPump foi um carrossel infantil que, ao girar, bombeava água para um tanque, e em 2006 ganhou uma aliança anunciada pela Casa Branca (US$ 60 milhões), e a empresa por trás dela mirava 4.000 bombas até 2010. A avaliação da Unicef de 2007 achou a tecnologia robusta, mas a estratégia de implantação precisava de revisão urgente: pouca consulta aos usuários, custo de cerca de US$ 14.000 por unidade e risco de escolher locais só para fechar o número. A lição não é "a ideia era ruim": é que bombas instaladas medem a entrega, não a água que chega a quem precisa.

A cena: 20 de setembro de 2006

Naquele dia, a então primeira-dama dos Estados Unidos, Laura Bush, anunciou uma aliança entre o governo americano, a PlayPumps International, a Case Foundation e outros parceiros. O comunicado da Casa Branca fala em uma "aliança de US$ 60 milhões" para levar água potável a até 10 milhões de pessoas, em 10 países da África subsaariana, até 2010. O governo americano, por USAID e pelo programa presidencial contra a aids, entraria com US$ 10 milhões em três anos, para instalar a PlayPump em cerca de 650 escolas, centros de saúde e áreas afetadas pelo HIV.

O texto oficial resumia o apelo em duas frases: o sistema "é movido pela brincadeira das crianças" e foi "inventado na África, fabricado na África" e beneficia africanos. Era difícil resistir. Criança brincando, aldeia com água, solução local, modelo de negócio embutido.

De onde veio a ideia

Segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), o engenheiro e perfurador de poços Ronnie Stuiver construiu um carrossel ligado a uma bomba simples e o exibiu numa feira agrícola em 1989. Trevor Field, executivo de publicidade, viu o aparelho e acrescentou o que faltava, na leitura da OMPI: um modelo de negócio. Os painéis do tanque elevado seriam alugados para anúncios, e a receita pagaria a manutenção.

A história pública foi se montando em etapas. Em 1999, Nelson Mandela abriu uma escola que tinha uma PlayPump. Em 2000, a empresa de Field, a Roundabout Outdoor, ganhou o prêmio Development Marketplace do Banco Mundial. Em 20 de setembro de 2006 veio a aliança.

Os números do combinado

É fácil misturar as cifras. Segundo a avaliação da Unicef, que cita a PlayPumps International, os anúncios de setembro de 2006 somavam US$ 16,4 milhões em três anos, vindos de USAID, do escritório do Coordenador Global de Aids dos EUA, da Case Foundation e da MCJ Foundation. A ficha da Casa Branca chama os US$ 60 milhões de valor da aliança e não cita 4.000 bombas; os documentos lidos não explicam a diferença para os US$ 16,4 milhões. E os US$ 10 milhões eram a parte do governo americano.

  • Meta de escala: segundo a Unicef, a PlayPumps International mirava 4.000 sistemas e até 10 milhões de pessoas até 2010 (a promessa dos 4.000 é da empresa, não da ficha da Casa Branca). A conta simples dá 2.500 pessoas por bomba (aritmética nossa, a partir dessas duas metas, que são da empresa).
  • Já instalado em 2007: mais de 900, com mais de 90% na África do Sul, segundo a Unicef. A OMPI fala em cerca de 1.000 até 2008.
  • O equipamento: um tanque de 2.500 litros a 7 metros de altura. O site da PlayPump prometia, nas palavras citadas pela Unicef, "até 1.400 litros por hora a 16 rotações por minuto, de 40 metros de profundidade".

O que a Unicef viu no campo

Em agosto e setembro de 2007, a Unicef, com apoio da World Vision e de outros parceiros, avaliou o sistema na África do Sul, em Moçambique e na Zâmbia. O relatório é público e é a fonte mais completa. Não é um linchamento, e isso importa.

O que a avaliação reconheceu a favor

  • A tecnologia é "inovadora e robusta", com baixo histórico de quebras em comparação com bombas manuais comuns.
  • Dá uma área de lazer onde isso é raro e converte energia de brincadeira em bombeamento.
  • O tanque permite levar mensagens de saúde às comunidades.
  • Em Moçambique, cerca de 60% das comunidades visitadas disseram que os técnicos treinados visitavam e respondiam aos chamados.

O que a avaliação encontrou de problema

  • Vazão menor que a promessa: em Moçambique, interessados relataram cerca de 4 horas de bombeamento contínuo para encher os 2.500 litros. Isso dá cerca de 625 litros por hora, contra os 1.400 prometidos como máximo (conta nossa; os dois números não foram medidos nas mesmas condições).
  • Quem girava: nenhuma criança entrevistada disse ter sido forçada a brincar, mas várias reclamaram de tontura e de quedas, e houve relatos de vômito. Quando não havia crianças, mulheres acabavam operando. Na Zâmbia, todas as mulheres entrevistadas disseram não gostar de operar, e em um local os adultos pagavam crianças para girar.
  • Consulta: na Zâmbia, em 63% dos locais visitados, os usuários disseram que não foram consultados adequadamente, não tiveram escolha de tecnologia e preferiam a bomba manual retirada para dar lugar à PlayPump. Esse dado vale para os locais visitados naquele país, não para todas as instalações.
  • Manutenção: na Zâmbia, 75% das bombas visitadas não traziam contato da equipe de manutenção, 63% das comunidades não sabiam a quem chamar e 25% das bombas precisavam de algum reparo. Uma escola esperou cinco meses por visita.
  • Preço: cerca de US$ 14.000 por sistema, contra US$ 6.500 dois anos antes, "sem explicação aos clientes". A Unicef anotou que esse valor cobriria vários poços com bomba manual convencional.

O trecho que explica o resto

O ponto mais útil do relatório não está nas queixas de uso, mas num risco de gestão. A estratégia da PlayPumps International previa um mínimo de 100 bombas por região. A Unicef avisou que alguns países não tinham 100 poços dentro dos critérios, o que criava o perigo de "locais inadequados serem incluídos para completar o número" e de locais serem escolhidos contra a vontade da comunidade, "como já foi demonstrado na Zâmbia".

Ou seja: o número virou a missão. O relatório classifica a abordagem como orientada pela tecnologia, e não pela demanda dos usuários. Conclusão da Unicef: a tecnologia é boa o bastante para melhorar, mas a estratégia "exige revisão séria e urgente". Entre as recomendações, instalar apenas em escolas ou instituições parecidas, só em poços sem bomba anterior, tratar a PlayPump como "apenas uma entre muitas opções" e mantê-la em fase piloto fora da África do Sul.

O que cada parte diz

Fatos e opiniões convivem aqui. Veja quem diz o quê.

  • Unicef (2007): robusta, com problemas graves de implantação. Recomenda piloto e consulta.
  • WaterAid (2009): em posição institucional, diz que a PlayPump é "uma ideia nova", mas não serve para seus projetos: custo de US$ 14.000 sem contar o poço, manutenção que exige habilidade rara, risco de lesão e dependência de crianças, peças mais difíceis de achar. Afirma que o custo de uma PlayPump pagaria ao menos quatro poços com bombas manuais. Aceita que possa haver caso em escola. É a opinião de uma ONG, não uma medição.
  • Relatório de Moçambique (2008): a consultoria Skat fez uma avaliação técnica e social independente de cerca de 100 bombas nas províncias de Maputo e Gaza. Não consegui abrir o texto completo, então não uso seus números.
  • Frontline World: segundo a reportagem, a Save the Children instalou dezenas de bombas em Moçambique, e aldeias recuperaram suas bombas manuais. Field disse que pediu à PlayPumps International que financiasse a reposição das paradas e que ela recusou. É a versão dele: a organização não deu entrevista ao programa.
  • Case Foundation: segundo a Circle of Blue, interrompeu as instalações por incerteza sobre a sustentabilidade e o estoque restante foi para a Water For People. Segundo a Universidade da Pensilvânia, a fundação publicou o texto "The painful acknowledgement of coming up short", cujo título já admite que ficou aquém.
  • "Obrigavam crianças a trabalhar." A Unicef registrou que nenhuma criança entrevistada disse ter sido forçada, e também registrou tontura, quedas, adultos pagando crianças e mulheres operando o aparelho.
  • "Falhou em toda parte." A Unicef chama a tecnologia de robusta, e os 63% da Zâmbia são de locais visitados, não de todas as instalações.
  • "O dinheiro era US$ 60 milhões." Era o valor da aliança, segundo a Casa Branca. O investimento anunciado, segundo a Unicef, foi de US$ 16,4 milhões.
  • "Foi malícia de doadores." Nenhuma fonte lida sustenta isso. O que os documentos mostram é uma história atraente, metas grandes e pouca consulta aos usuários.

O que isso muda no seu negócio

Você não vende bombas de água, mas provavelmente tem uma meta que mede o que você entrega: leads captados, alunos matriculados, livros impressos. Cinco hipóteses a testar:

  1. Escreva a métrica de resultado ao lado da de entrega. Alunos matriculados ao lado de alunos que terminaram e aplicaram. Se só a primeira aparece no painel, a PlayPump mora aí.
  2. Faça um piloto pequeno e fale com quem usa antes de escalar. Escolha de 5 a 10 clientes, acompanhe o uso real por algumas semanas e anote o que eles fazem no lugar do que você planejou. É uma hipótese de trabalho, não garantia.
  3. Dê escolha a quem recebe. Onde a Unicef viu consulta fraca, viu bomba preferida trocada por outra. Pergunte ao cliente que alternativa ele usaria hoje, e compare.
  4. Desconfie de meta que obriga a achar cliente. Se você precisa de "mais 100 casos" para fechar o número, o risco descrito pela Unicef (incluir locais inadequados) vale para o seu funil também.
  5. Planeje o pós-venda antes da venda. Manutenção sem contato visível e sem dono falhou na Zâmbia. No seu caso: quem responde quando o cliente trava, e em quanto tempo.

Para montar esse painel, vale ler o guia de medição e decisão e o caso do vídeo do Facebook e a lei de Goodhart, em que uma métrica virou alvo e deixou de medir o que importava.

Quando NÃO usar essa lição

  • Para concluir que inovação com apelo emocional é suspeita. A Unicef reconheceu vantagens reais. A lição é sobre validar, não sobre desconfiar de ideias bonitas.
  • Para julgar a decisão de 2006 só pelo desfecho. Havia prêmio, relatos positivos e uma avaliação de campo ainda por fazer. O erro apontado nos documentos é escalar a meta antes de testar o uso.
  • Para generalizar amostras. Os 63% e os 25% são de locais visitados em um país e um ano. Servem de alerta, não de lei.
  • Para atribuir intenção a pessoas ou organizações. Os fatos aqui vêm de relatórios públicos e de reportagens, e as versões de cada parte aparecem como versões.

Fontes

Para ver como a eBuz organiza o que medir em cada etapa, comece pelo Mapa de Contexto e continue pelos outros casos do Swipe File.

Perguntas frequentes

O que era a PlayPump?

Era um carrossel infantil ligado a uma bomba: quando as crianças giravam, a água subia de um poço para um tanque elevado de 2.500 litros. Os painéis do tanque levavam anúncios e mensagens de saúde, e a receita publicitária deveria pagar a manutenção. O equipamento foi criado na África do Sul e promovido como solução africana.

Quanto dinheiro e quantas bombas foram prometidos em 2006?

A Casa Branca anunciou em 20 de setembro de 2006 uma aliança de US$ 60 milhões, com 10 países e até 10 milhões de pessoas até 2010. Segundo a Unicef, o investimento anunciado somava US$ 16,4 milhões e a meta da PlayPumps International era de 4.000 sistemas (número que a ficha da Casa Branca não traz). Eram cifras diferentes, que muita gente mistura.

O que a Unicef concluiu na avaliação de 2007?

A Unicef chamou a tecnologia de inovadora e robusta, mas disse que a estratégia de implantação exigia revisão séria e urgente. Apontou pouca consulta aos usuários, custo de cerca de US$ 14.000 por unidade, manutenção sem contato local e o risco de escolher locais só para completar o número. Recomendou tratar a PlayPump como uma opção entre várias e manter fase piloto fora da África do Sul.

Crianças eram forçadas a girar a PlayPump?

A avaliação da Unicef registrou que nenhuma criança entrevistada disse ter sido forçada a brincar. Registrou também tontura, quedas, mulheres operando quando não havia crianças e, em um local da Zâmbia, adultos pagando crianças para girar. Os dados vêm dos locais visitados, não de todas as instalações.

Qual a lição de negócio da PlayPump?

Medir entrega (bombas instaladas) não é medir resultado (água disponível). Antes de escalar, vale testar com poucos usuários, ouvir quem usa, dar escolha e planejar o pós-venda. É hipótese de trabalho: o piloto serve para descobrir, e não para confirmar o que você já decidiu.