Resposta curta: segundo Chip Heath, num exercício de sala em Stanford, alunos fizeram discursos de um minuto sobre crime e, dez minutos depois, 63% lembravam das histórias contadas e só 5% de qualquer estatística individual. As cifras vêm do relato de Made to Stick, como citado por quatro textos que li; não li o livro. Não é um estudo publicado com métrica auditada, e as duas cifras medem coisas diferentes. Mesmo assim, a lição sobrevive: o que o seu cliente consegue visualizar e conferir fica na cabeça, e o adjetivo some.
O caso: discursos de um minuto sobre crime
O exercício aparece em Made to Stick (Chip Heath e Dan Heath, 2007) e é descrito por vários textos que citam o livro. Eu não consegui abrir a página do livro com essa passagem: o trecho gratuito que li traz a introdução, mas não o exercício. Os números abaixo vêm de textos que o citam, e eles concordam entre si.
Segundo a descrição publicada pelo blog Manner of Speaking (outubro de 2009), o professor dá aos alunos estatísticas sobre a criminalidade nos Estados Unidos e divide a turma em grupos de seis a oito pessoas. Cada aluno faz um discurso de um minuto. Metade defende que o crime não violento é um problema sério, e a outra metade defende que não é. Ao final, o grupo vota em quem foi o melhor orador.
Depois vem a parte que interessa. Passado um intervalo curto, e com apenas cerca de dez minutos desde os discursos, o professor pede que cada um escreva tudo o que lembra. Os números, segundo esses relatos (não conferi no livro), são estes:
- No discurso médio de um minuto, o aluno típico usa 2,5 estatísticas.
- Só um aluno em cada dez conta uma história.
- Quando pedem que lembrem dos discursos, 63% lembram das histórias.
- Só 5% lembram de qualquer estatística individual.
A mesma descrição acrescenta que os alunos têm sorte se recordam uma ou duas ideias por orador, e que muitos deixam em branco alguns dos discursos. Os mesmos números aparecem, com variações de detalhe, em textos como o de Laura Boggess (2010) e em um artigo do Hackernoon. Um deles chama o tema de "crime não violento"; outro só diz "um tópico particular". Por isso, quando falo do tema fora deste parágrafo, digo apenas "crime".
O mecanismo: o aluno monta a conclusão sozinho
Por que a história fica e o número vai embora? O que as fontes sustentam é só o resultado. A explicação abaixo é leitura minha, uma hipótese razoável e não um achado do exercício.
Uma estatística chega pronta: "x% dos casos". Quem ouve só precisa guardar o número, e o número não tem onde se agarrar. Uma história com pessoa, lugar e consequência dá ao ouvinte algo para imaginar. Ele chega à conclusão por conta própria, e conclusão que a pessoa tirou sozinha costuma durar mais do que conclusão que alguém declarou.
É a mesma ideia que um conselho de escrita famoso resume: não diga que a lua brilha, mostre o clarão no caco de vidro. Essa frase, aliás, tem uma história própria, que aparece logo abaixo.
O que a história popular costuma errar
1. Chamar de "estudo de Stanford"
É um exercício que o professor faz em aula e que o livro relata. Eu não encontrei artigo científico publicado dessa demonstração, só relatos dela. Serve para ilustrar uma ideia e para guiar um teste seu. Não serve para escrever "a ciência provou".
2. Ler 63% contra 5% como uma comparação limpa
Olhe de perto o que cada cifra mede. Os 63% são de alunos que lembraram das histórias (e só um em cada dez discursos tinha uma). Os 5% são de alunos que lembraram de qualquer estatística individual (e cada discurso tinha em média 2,5). Os textos que li não informam quantas histórias e quantos números havia no total, nem como a lembrança foi contada item por item. Então a conta de "12 a 13 vezes", que alguns fazem dividindo uma cifra pela outra, é aritmética de quem escreve, não um resultado do exercício.
Isso não derruba a lição. Mostra apenas que o número bonito não deve ir para a sua página como "histórias vendem 12 vezes mais".
3. Trocar por "histórias são 22 vezes mais memoráveis"
Esse número circula junto com o de Heath. Uma análise que li chama o "22 vezes" de aparentemente apócrifo e diz não ter achado dados que o sustentem. Se você vir a cifra, desconfie dela.
4. Atribuir a frase do caco de vidro a Tchékhov
Numa carta ao irmão Alexander, em maio de 1886, Tchékhov escreve (na tradução inglesa de Yarmolinsky, de 1954, aqui em tradução livre para o português) que, para criar uma noite de luar, basta dizer que no açude do moinho "um pedaço de vidro de garrafa quebrada brilhava como uma pequena estrela". A frase pronta, "não me diga que a lua brilha, mostre o clarão no caco de vidro", é um resumo posterior. O site Quote Investigator conclui que Tchékhov provavelmente não a disse nem a escreveu. O conselho é dele. A frase de efeito, não.
O que isso muda no seu negócio
Aqui entra a extrapolação. O exercício foi com alunos, em sala, sobre crime. Nada disso foi testado em página de venda. O que segue são hipóteses para você testar, não promessas.
- Marque os adjetivos da sua página. Sublinhe cada "transformador", "completo", "incrível", "exclusivo". São afirmações que quem lê só pode aceitar por confiança no dono da página. Escolha três.
- Troque cada um por uma demonstração com quatro peças. (a) Uma pessoa com nome, ou uma descrição que o leitor possa checar. (b) O estado anterior, medido. (c) Um comportamento observável: o que ela passou a fazer. (d) Uma quantidade com prazo. Exemplo ilustrativo, sem dados reais: "Marina vendia por indicação. Em março tinha 4 clientes ativos. Em junho, depois de publicar o convite de duas linhas, tinha 9". Se você não tem um caso assim, a página ainda não tem prova.
- Prefira o caso mediano ao caso espetacular. O leitor desconfia do resultado que parece bom demais. Um caso comum, com número e prazo, é mais fácil de conferir e de acreditar.
- Mantenha o número, mas no lugar certo. A lição não é "sem estatística". É que o número solto não gruda. Coloque-o dentro do caso, como a quantidade da peça (d).
- Teste. Duas versões da mesma página, uma com os adjetivos e outra com a demonstração. Meça cliques no botão e perguntas recebidas. Se o seu público não reagir diferente, mantenha a que respondeu melhor, e anote que a hipótese não se confirmou para ele.
Para o raciocínio por trás de pôr uma promessa concreta no lugar da vaga, vale ler o artigo sobre proposta de valor contra gimmick. Para ver outro caso em que o detalhe específico vence o adjetivo, leia o anúncio Think Small da Volkswagen. E a lista completa de casos está em Swipe File.
Quando NÃO usar essa lição
- Quando você não tem um caso real. Inventar a Marina da peça (a) é fabricar depoimento. Sem caso verdadeiro, use outra forma de prova que o leitor possa conferir, como garantia, demonstração ao vivo ou amostra.
- Quando o leitor decide por número. Um comprador técnico, que compara especificações, quer a tabela. Uma história no lugar dela irrita.
- Quando a história esconde um dado ruim. Caso mediano com número e prazo não pode servir para disfarçar o que a média dos clientes obtém. Se o caso é melhor que a média, diga.
- Quando você pretende citar o 63% como prova científica. É exercício de sala, relatado em livro popular, com cifras que medem coisas diferentes.
- Em canais não testados. O exercício foi falado, em sala, com recall em dez minutos. Página, email e anúncio têm outra dinâmica e outra janela de lembrança.
Fontes
- Manner of Speaking, "Making it Stick: Tell stories" (13/10/2009): descreve o exercício (tema, grupos, votação, intervalo de dez minutos) e traz as cifras de 2,5 estatísticas, uma história em dez, 63% e 5%.
- The High Calling, "What Sticks" (Laura Boggess, 2010): repete as mesmas cifras, atribuídas ao livro, sem especificar o tema dos discursos.
- Hackernoon, "Why tech brands should worry about storytelling": relata o pitch de um minuto, a pausa de dez minutos e os mesmos 63% e 5%, falando em crime não violento.
- Patience-Davies, "Just where did the claim that stories are 22 times more memorable come from?": calcula a razão do exercício e diz que o "22 vezes" parece apócrifo.
- Quote Investigator, origem de "show me the glint of light on broken glass": traz o trecho da carta de Tchékhov de 1886 (tradução de Yarmolinsky) e conclui que a frase pronta provavelmente não é dele.



